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Com "Danças Negras", diretor lança "manifesto político e cultural"

Publicado em 09/09/21 às 11h45

 
 
Danças Negras, dirigido por João Nascimento e Firmino Pitanga, é um documentário necessário para o presente, e definido por um dos diretores por um dos diretores como um “manifesto político e cultural em forma de cinema, um grito de liberdade em tempos de opressão acentuada”. Discutindo não apenas a manifestação artística que lhe dá título, mas também identidade e racismo, entre outras questões, o  longa chega aos cinemas hoje (9/9). Nessa entrevista, Nascimento fala sobre o processo de construção deste documentário, sua importância para o Brasil de hoje e suas descobertas ao fazer o filme.
 
Como surgiu a ideia para fazer o documentário? Ela surge de uma necessidade?
O projeto tem início em um tempo histórico de lutas, ações antirracista e movimentos políticos-culturais efervescentes na cidade de São Paulo na década passada, onde a Cia Treme Terra abre importantes discussões sobre o racismo institucional em políticas públicas culturais, gerando incômodo em grande parte da classe artística eurocentrada e conservadora. Foi aí que percebemos a importância de registrar e documentar o estilo e pensamento em dança negra contemporânea que a Cia Treme Terra vem praticando desde 2006.
Não tínhamos pretensão de montar um longa-metragem. Inicialmente, pensávamos apenas em documentar as nossas próprias histórias. Então, cada vez que a gente entrevistava um personagem, era como se estivéssemos puxando uma ponta de um infinito novelo de lã das artes negras, de que ainda nos restam muitas histórias a puxar e desvendar.
 
Quanto tempo levou para ser feito?
Foi por volta do ano de 2014 que começamos a pensar na ideia de coletar depoimentos de figuras importantes que contribuíram para a construção de um pensamento em danças negras no Brasil. Com recursos próprios, no início de 2016 eu viajo para Salvador para captar os dois primeiros depoimentos do filme, da educadora e candomblecista Makota Valdina (que faleceu em 2019) e do coreógrafo norte-americano Clyde Morgan. Em 2018, nós estávamos captando o último depoimento do escritor cubano Carlos Moore. Em 2020, conseguimos finalizar o filme no formato de longa-metragem. Por conta da pandemia, tivemos que aguardar até o atual momento para exibi-lo nos cinemas, que estarão acolhendo o público com metade da capacidade de ocupação das salas e obrigatoriedade do uso de máscaras.
Podemos dizer que o filme é fruto de uma produção que durou algo em torno de 7 anos, desde a concepção, a pesquisa, a produção, a finalização e a distribuição nos cinemas.
 
Como foi dirigir a quatro mãos? Como a experiência de Firmino Pitanga como coreógrafo ajudou na construção do filme?
Desde quando eu convidei o Firmino Pitanga para assumir a direção coreográfica da Cia Treme Terra em 2010, nós trabalhamos a quatro mãos em quase todos os projetos, discutindo, concebendo e elaborando de maneira orgânica cada movimento, cada coreografia e cada ação. Foi em parceria com Firmino Pitanga que nós chegamos à terminologia “Dança Negra” para definir o estilo e pensamento de dança da Cia Treme Terra na época. Este conceito gerou incômodo no ambiente das artes do corpo. Interessante que depois muita gente começou a utilizar essa expressão. Até então não tínhamos conhecimento de outros grupos que se auto-intitulavam desta forma.
 
Firmino Pitanga foi fundamental na elaboração da pesquisa do filme, ele agregou com sua longa experiência, um mestre que vivenciou muitas das histórias contadas no documentário, Pitanga foi iniciado na dança por Clyde Morgan, integrando o grupo de dança contemporânea da UFBA, se apresentando no Festac de 1977 em Lagos, na Nigéria. Então, parte dos personagens entrevistados estão ligados diretamente as histórias dele, que se conectam às nossas, talvez pela linhagem artística baiana e o olhar de uma arte que se constrói nas múltiplas linguagens, o qual eu trago como referência através de meu pai, Dinho Nascimento, capoeirista e músico, que também é personagem do filme.
 
O que vocês descobriram sobre a dança e a cultura africana enquanto faziam o filme?
As danças negras são vivas, dinâmicas, estão em ressignificação constante. Elas contam histórias, elas guardam memórias, são gestos de resistência, são imagens de uma África em movimento, deslocamentos diaspóricos presentes em cada um de nós, brasileiros e brasileiras. A complexidade da dança pode estar na simplicidade, a sua erudição encontra-se nas entrelinhas poéticas, nos códigos, nas estéticas, técnicas e corporeidades.
 
Como foi a seleção das entrevistadas e entrevistados para o filme?
As escolhas dos personagens surgem das experiências, vivências e discussões artísticas suscitadas nos encontros, ensaios e movimentos políticos articulados pela Cia Treme Terra. Muitos dos nomes estão vinculados às nossas histórias de vida artística e política, compreendendo a ancestralidade, a linhagem cultural e a abordagem política antirracista, atrelada ao ambiente de criação e pensamentos em arte negra.
 
Quanto material bruto vocês tinham, e como foi o trabalho de montagem  com Denison Luz no sentido da construção da narrativa?
Nós entrevistamos cerca de 15 personagens, cada entrevista com duração média em 90 a 120 minutos. Sem contar os 3 dias de workshops de dança com Clyde Morgan aqui em São Paulo e os vídeos e fotografias de acervos pessoais, então imagina o quanto de material foi gravado e organizado para chegarmos em um corte de 72 minutos. A decupagem foi um trabalho árduo, no entanto, um profundo estudo sobre o tema, que nos permitiu revisitar os conteúdos de maneira mais consciente, compreendendo as nuances de cada fala e pensamentos. Decidir o corte final é sempre muito difícil, a vontade é de colocar todas as falas, quem sabe um dia montar uma série documental de Danças Negras.
Conheci o Denison Luz aqui em São Paulo na casa de meu padrinho Miranda de Amaralina. Quando comentei sobre o projeto, Denison Luz automaticamente se ofereceu para participar, ficou muito empolgado e se colocou totalmente à disposição, talvez por ser negro, baiano e se identificar com o tema. Eu fiz a criação do roteiro e organização dos blocos temáticos. Então, ele colaborou com sua sensibilidade, conseguindo dar dinâmica à construção da narrativa com um olhar apurado, de quem estava totalmente envolvido no projeto. O Denison trouxe uma estética cinematográfica, permitindo ao espectador respirar com o filme, viajar nas histórias contadas de maneira fluida.
 
Qual a importância de um filme como "Danças Negras" num momento como esse em que vivemos no Brasil?
Olhar para a história do Brasil é compreender como a manutenção do racismo acontece no cotidiano das relações sociais. Parte considerável da população elegeu um presidente declaradamente racista. Difícil não lembrar daquela palestra no clube Hebraica em 2017, com ofensas raciais criminosas contra os indígenas e quilombolas, ideias que refletem um pensamento de um grupo opressor orquestrado por uma elite branca e burguesa, que se beneficia dessa estrutura, dessa cultura escravocrata.
O filme Danças Negras é um manifesto político e cultural em forma de cinema, um grito de liberdade em tempos de opressão acentuada, que vai além de um filme de dança propriamente dita. Ele mexe em feridas sociais que precisam ser curadas, ele dialoga com o tempo em que estamos vivendo, atravessa gerações, integra um mosaico de filmes com viés antirracista, um olhar que soma reflexões a outros olhares, de cineastas, artistas e pensadores que vieram antes da gente, os contemporâneos e outras que ainda virão no futuro.
 
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Alysson Oliveira


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