Os amores dela

Ficha técnica


País


Sinopse

Pouco depois de separar do namorado, Anaïs conhece um editor, que, sendo casado, quer mantê-la como amante, mas ela não aceita. Ela acaba, no entanto, se envolvendo com a mulher dele, uma escritora.


Nota Cineweb

PéssimoRuimRegularBomÓtimo


Crítica Cineweb

19/07/2022

Como Julie, protagonista de A pior pessoa do mundo, Anaís, personagem central de Os amores dela, parece correr o tempo todo. E não é apenas isso que as duas têm em comum: parece que há coisas demais na vida e na cabeça delas, como se não dessem conta de tudo o que está acontecendo, mas também como se não conseguissem lidar consigo mesmas e adotassem (de forma involuntária) um comportamento levemente autodestrutivo.
 
Este primeiro longa de Charline Bourgeois-Tacquet, que também assina o roteiro, apresenta uma diretora com confiança e estilo, trazendo uma trama, que, se num primeiro momento, parece simples, com o tempo ganha novas camadas e complexidade. Ajuda muito o fato também de ter uma grande atriz no papel principal: Anaïs Demoustier, que, novamente, se confirma como uma das grandes intérpretes francesas de sua geração.
 
O filme começa com uma cena que prende, e não solta mais seu público: Anaís correndo (obviamente) na rua, com um buquê de flores amassado, ao som de uma música de piano que parece ter um ritmo ainda mais rápido do que o dela. Sem muitos rodeios, a personagem é apresentada como hiperativa, uma representante clássica de sua geração milennial. Doutoranda em literatura, ela acaba de se separar do namorado, Raoul (Christophe Montenez). Na verdade, eles não estão apenas morando juntos – a relação, aparentemente, continua – pois ela não consegue dormir com alguém ao seu lado.
 
Tudo isso é explicado muito rapidamente, numa cena em que ela recebe a visita da proprietária (Marie-Armelle Deguy) do apartamento onde mora, e a quem deve alguns meses de aluguel. Anaís não tempo a perder, enquanto conversa com a mulher, já troca de roupa, precisa sair para um jantar – ao qual irá de bicicleta e subirá 16 andares por escada, pois tem fobia de elevador.
 
Não é preciso gostar de Anaís, nem simplatizar com ela, mas é preciso tentar compreendê-la. É uma jovem num mundo que cobra muito dela. É preciso ser mulher, jovem, bonita, inteligente, sagaz, divertida. E não falhar em nada. É um peso que ela nunca pediu para si, mas com o qual é obrigada a lidar. É impossível imaginar outra atriz no papel que não Demoustier.
 
Nesse jantar, ela conhece Daniel (Denis Podalydès), um editor parisiense mais velho do que ela e casado com uma escritora, Emilie (Valeria Bruni Tedeschi). Anaís entrará numa relação meio obsessiva, meio tóxica, na qual ela cobra exclusividade, mas também não sabe lidar com o que está sentindo, nem com as incertezas do amante, que não quer abandonar a esposa.
 
Lidar com sentimentos e emoções, realmente, não é o forte de Anaís (mas, também, de quem é?). Quando sua mãe (Anne Canovas) conta que seu câncer voltou, a jovem reage como se a mulher já estivesse morta. Quando reencontra seu companheiro, a protagonista conta, com toda indiferença, que está grávida. E, numa conversa estranha, ele conclui: “Você não sabe o que é uma relação humana”. Apesar disso tudo, o filme não é cruel, nem julga sua personagem – pelo contrário. O roteiro de Bourgeois-Tacquet tem um olhar terno, carinhoso, por essa jovem em busca de um rumo na vida.
 
Depois de se separar de Daniel, Anaís começa a se impor para Emilie. Vai a um congresso de escritores, do qual ela participa, e começa uma amizade cada vez mais próxima com ela. E é desse laço que poderá surgir a grande transformação na vida da jovem. Basta dizer que a cena final recoloca todo o filme numa nova perspectiva. Aquela moça que parecia fria e indiferente se revela outra mulher. Novamente, Demoustier é a alma de Os amores dela. Outra atriz menos competente, poderia transformar a personagem num clichê ambulante, mas aqui temos uma pessoa crível que se transforma diante dos nossos olhos – e acreditamos em tudo isso.

Alysson Oliveira


Trailer


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