Memoria

Ficha técnica


País


Sinopse

Uma escocesa viaja pela Colômbia e tem sua vida transformada quando começa a ouvir estranhos estrondos, que só ela escuta.


Nota Cineweb

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Crítica Cineweb

13/07/2022

O tailandês Apichatpong Weerasethakul sempre fez um cinema em que a barreira entre o real e o onírico é esfumaçada – fumaça, bruma, neblina são, aliás, elementos visuais e narrativos constantes em seus filmes, que incluem Mal dos TrópicosTio Boonmee Que Pode Recordar Suas Vidas Passadas Cemitério do Esplendor. Em Memoria, seu primeiro trabalho fora de seu país, ele volta novamente a pisar no terreno do etéreo, do metafísico, mas, mais do que nunca, ele permite uma leitura mais materialista.
 
Vencedor do Prêmio do Júri em Cannes 2021, o filme foi rodado e se passa na Colômbia, onde está a protagonista, a escocesa Jessica, interpretada por Tilda Swinton. Ela é uma especialista em flores e está obcecada em encontrar uma forma de proteger orquídeas de uma espécie de fungos. É uma batalha contra a natureza. Outra batalha, no mesmo teor, é contra o estrondo que ouve em sua cabeça de tempos em tempos. É um barulho estranho, forte, mais do que uma explosão. Ela o descreve como concreto se chocando contra metal.
 
Memória é nossa capacidade de lembrar o passado. Há a coletiva e a individual – embora ambas sejam construídas num nível mais subjetivo. É da memória que também parte a construção da narrativa histórica mediada, é claro, por ideologias e questões de poder. No filme, numa escavação são encontrados, por acaso, restos mortais de humanos que existiram milhares de anos atrás. São corpos deteriorados que nos lembram de tempos imemoriais, tão distantes que eles e seus rituais já foram esquecidos.
 
A Colômbia de Weerasethakul não é muito diferente da sua Tailândia, marcada por florestas e uma urbanidade particular, repleta de sons e cores. O diretor deixa que seus planos se prolonguem. Em seus filmes, ele é o mestre do tempo, dilata-o ao seu modo, de forma que sua narrativa se construa, peculiarmente, sem tempos mortos. É uma opção clara que contribui na construção da atmosfera, da exasperação e da possível epifania libertadora.
 
O cinema é uma força dentro mesmo do próprio Memoria. Intrigada e desesperada com o som que apenas ela ouve em sua cabeça, Jessica procura um engenheiro de som, amigo de um amigo. Hernán (Juan Pablo Urrego) está em sua mesa de som e juntos começam a experimentar diversos efeitos até encontrar aquele que reproduz perfeitamente o estouro que a protagonista ouve. É uma sequência fascinante em sua simplicidade e no quanto é capaz de revelar – entre outras coisas, sobre o artificialismo da arte. Hernán fica fascinado por Jessica e parece que algum romance poderá sair dali, mas o inusitado acontece.
 
Swinton – cada vez mais interessada em trabalhar com diretores e diretoras de renome, uma lista que inclui Pedro Almodóvar, Bong Joon-Ho, Lynne Ramsay e Guillermo del Toro (numa futura adaptação de Pinóquio), parece uma presença de outro mundo aqui. Sua personagem, uma mulher completamente deslocada, que mais reage do que age, lembra muito a protagonista de A Mulher Sem Cabeça, interpretada por María Onetto, no filme da argentina Lucrécia Martel. Talvez não seja falta de iniciativa da personagem, mas cautela, pois ela age diferente num encontro inusitado com um pescador, também chamado Hernán, agora interpretado por Elkin Díaz.
 
A sequência é, novamente, longa e o coração de Memoria. Nela, verdades vêm à tona e Jessica pode acessar o que há de mais interior em si mesma. Lembranças e sons desconexos se formam em sua mente, ela parece funcionar como uma antena que capta todas as ondas ao seu redor, sem conseguir concentrar-se em nada.
 
Há uma possível explicação científica para o problema da personagem, conhecido como Síndrome da Cabeça Explosiva, algo que o próprio Weerasethakul confessou já ter enfrentado em sua vida. Mas Memoria se dá mais no campo da metafísica, sem se importar com esse tipo de coisa. O filme voa tão alto em seu fantástico que há belos momentos que podem ser puro delírio – do diretor ou da personagem.
 
A memória, parece dizer Weerasethakul, é fundamental para nossa existência. Em certos momentos, personagens aqui confundem suas lembranças, ou talvez tenham transitado entre uma existência paralela e outra, sem se dar conta. O mundo ao redor pode estar ruindo, mas as explosões que Jessica ouve e sente não são necessariamente o indício do fim, pois, como escreveu T. S. Eliot, “é assim que o mundo termina, não com um estrondo, mas com um sussurro”. Em Memoria, como em outros filmes do diretor, as pessoas sussurram palavras que têm poder transformador.

Alysson Oliveira


Trailer


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