O Homem que Copiava

Ficha técnica


País


Nota Cineweb

PéssimoRuimRegularBomÓtimo


Crítica Cineweb

11/06/2003

O título remete a um protagonista (Lázaro Ramos) que xeroca sem parar - toda a sua informação é de segunda mão, recortada do todo onde fazia sentido. Bem ao contrário do filme, que é um exemplo de originalidade e vigor, mesmo carregado de múltiplas referências que o diretor-roteirista nunca procura esconder.

Um dos melhores roteiristas em atividade no Brasil nas últimas duas décadas, o gaúcho Jorge Furtado é do tipo que não tem a menor preguiça de trabalhar no sentido de criar situações, incidentes e reversões de expectativas. Suas histórias têm, assim, uma construção sólida invejável, com personagens bem-nutridos de biografia, psicologia, sonhos e motivos. Melhor ainda, Furtado procura sempre a mistura de gêneros, emaranhando drama, comédia, aventura, suspense, romance, passando de um ao outro com a mesma naturalidade abrupta que a vida cotidiana - mas sem esquecer que o cinema guarda espaço para um tempero surreal.

Com essa receita simples e nada fácil de concretizar, Furtado conta a história de André (Lázaro Ramos, de Madame Satã), 20 anos, segundo grau incompleto, operador de fotocopiadora numa papelaria de Porto Alegre. Nessa vida comum, descolorida e pobre de tudo, ele divide o apartamento com a mãe, desafoga energias e frustrações desenhando quadrinhos e sonha com Sílvia (Leandra Leal), a vizinha do apartamento em frente, que ele espiona com um binóculo todas as noites.

Para se aproximar de Sílvia, ele a segue até a loja de roupas em que ela trabalha. Começa uma conversa com a falsa intenção de comprar um roupão de presente para a mãe - o problema é que ele não tem dinheiro. Apesar de a roupa custar apenas R$ 38,00, é demais para o bolso dele. Essa necessidade vira uma compulsão, que envolve André em esquemas de falsificação, assalto e muito mais, com a participação ativa do outro casal da história, a colega da papelaria, a assanhada Marinês (Luana Piovani), e seu namorado, Cardoso (Pedro Cardoso).

Com estes personagens suburbanos e trabalhadores, Furtado cria um panorama do universo jovem no Brasil - menos adolescente do que seu longa de estréia, o deliciosamente romântico Era Uma Vez Dois Verões. Tomara que o público embarque no jogo ativo que ele propõe, na originalidade visceral de O Homem que Copiava, que tem como seu ponto forte justamente não se parecer com filme nenhum, em sua mistura de gêneros e oscilação de tons, inclusive os mais sombrios, especialmente na história familiar de Sílvia. E assim se possa fazer justiça a esta combinação de talentos de vários calibres, todos trabalhando no ritmo afinado do maestro Furtado que, no melhor estilo brasileiro, não se esquece de salpicar todo o caminho com um agudo senso de humor.

Neusa Barbosa


Deixe seu comentário:

Imagem de segurança