A filha perdida

Ficha técnica


País


Sinopse

Leda é uma professora universitária passando férias numa ilha grega. Ao conhecer uma jovem mãe e sua filha pequena, começa a lembrar-se do seu passado, quando as filhas eram crianças, e repensar suas escolhas como mãe, mulher e profissional.


Nota Cineweb

PéssimoRuimRegularBomÓtimo


Crítica Cineweb

03/01/2022

Maternidade, ao contrário do que muitos acreditam, não é um elemento natural da mulheres. É, como tantas outras coisas (em especial em se tratando do corpo feminino), uma construção social – embora, tente-se se passar por outra coisa.  A Filha Perdida, adaptação de Maggie Gyllenhaal (indicada ao Globo de Ouro de direção) para o romance homônimo da italiana Elena Ferrante, tem essa questão ao centro, há um bom tempo, conhecida como: nature x nuture.
 
A personagem principal é Leda, interpretada por Olivia Collman (indicada ao Globo de Ouro de atriz principal em filme dramático), uma professora universitária inglesa radicada nos EUA, que passa férias, solitária, na ilha de Spetses, na Grécia. Tudo o que vemos no filme é filtrado pela experiência e a sensibilidade dessa personagem. Há, como se costuma dizer atualmente, um gatilho perigoso para ela: a maternidade, especialmente jovens mães com suas filhas pequenas, como se verá.
 
No princípio, a praia onde está é tranquila, praticamente deserta. Apenas um rapaz que cuida da área, Will (Paul Mescal), é sua companhia. Porém, logo chega uma família grega, grande, barulhenta e expansiva. O primeiro contato não é muito amistoso, mas o que mais incomodará Leda será ver uma jovem mãe, Nina (Dakota Johnson), com sua filha pequena. A visão delas desperta memórias dolorosas em Leda, que em flashbacks é interpretada por Jessie Buckley.
 
Gyllenhaal, que também assina o roteiro premiado no Festival de Veneza, constrói seu filme em dois tempos, mas sem cair na armadilha do presente como mera consequência do passado. Leda é uma personagem complexa, cheia de questões mal resolvidas que sempre reverberarão em sua vida. Ela nega que sua existência toda seja definida pela (ou apenas pela) maternidade. Como conciliar ser mãe de duas meninas pequenas e sua carreira universitária ainda no começo? Agora, próxima dos 50 anos, a protagonista olha para trás e tenta compreender suas decisões do passado.
 
Os flashbacks mostram uma vida sufocada, que parece sempre fechada entre as paredes de uma casa, onde Leda deveria se estabelecer como o anjo do lar – uma condição imposta à qual ela se rebelará. Aquilo que se assume como natural é apenas uma construção social – e ter consciência disso é o primeiro passo para tomar as rédeas de sua vida.
 
O título, A Filha Perdida, é, ao mesmo tempo, simbólico e direto. Anos atrás, Elena perdeu, por alguns momentos, sua filha pequena na praia. Agora, o feito se repete com Nina. Distraída por alguns segundos, recepcionando o marido que chega de barco, ela perde sua filha, que logo será encontrada por Leda. A garotinha, por sua vez, “perde” sua boneca que, na verdade, foi roubada pela protagonista. O brinquedo se torna uma espécie de compensação simbólica para Leda de um dos períodos mais dolorosos e livres de sua vida – quando saiu de casa por um tempo, abandonando marido e filhas aos cuidados de sua própria mãe.
 
Gyllenhaal, atriz experiente e competente, estreia na direção com segurança, sem se deixar seduzir por pirotecnias formais como tantos  e tantas estreantes. A fotografia, assinada pela francesa Hélène Louvart (A Vida Invisível, Todos os mortos), prima pelo realismo, trazendo uma nova camada de compreensão ao filme. Há algumas diferenças marcantes entre o filme e o romance, como por exemplo, Leda é napolitana, assim como a família que chega para atrapalhar sua praia deserta, o que deixa bem clara a posição de mafiosos e o perigo que a protagonista corre ao se tornar confidente de Nina.
 
No filme, também, as duas mulheres se tornam estranhamente próximas. Nina sente confiança em Leda – sem saber que a mulher roubou a boneca da sua filha, que agora está doente por ter perdido o brinquedo – e conta coisas bastante pessoais. Assim, em certa medida, A Filha Perdida, como a tetralogia napolitana de Ferrante, torna-se um filme sobre amizade feminina e como essa pode ser libertadora. A ideia é de que só uma mulher – por diversas questões, mas, em especial, pela experiência social compartilhada – pode entender outra. Nesse sentido, Gyllenhaal compreendeu a escritora italiana com sagacidade e verve.

Alysson Oliveira


Trailer


Deixe seu comentário:

Imagem de segurança