O terceiro homem

O terceiro homem

Ficha técnica


País


Sinopse

Na Viena do pós-II Guerra, chega o escritor Holly Martins, atendendo a um convite do velho amigo Harry Lime, que lhe ofereceu um emprego. Mas, ao chegar, Holly descobre que Lime acaba de morrer. Decide ficar na cidade, descobrindo que o amigo levava uma vida completamente diferente do que pensava, no submundo do mercado negro.


Nota Cineweb

PéssimoRuimRegularBomÓtimo


Crítica Cineweb

20/12/2021

Se dependesse apenas do todo-poderoso produtor David O. Selznick, O Terceiro Homem teria sido filmado inteiramente em estúdio e o personagem crucial, Harry Lime, teria sido interpretado pelo ator, dramaturgo e compositor Noel Coward. Felizmente, o diretor Carol Reed bateu-se ferozmente por dois que são os mais nítidos e incontestáveis trunfos do filme, responsáveis por ter se tornado memorável ao longo de décadas: a filmagem em locação, numa Viena ainda bastante detonada pelos bombardeios da II Guerra, e a escalação de Orson Welles como Lime. 
 
Foi ideia de Reed também a escolha do compositor austríaco Anton Karas como diretor do musical, compondo como música-tema uma melodia tocada na cítara que é uma das mais perfeitas traduções do clima cínico deste grande filme noir. Reed descobriu Karas por acaso, tocando numa noite numa cervejaria de Viena, tornando-o uma celebridade internacional a partir do sucesso do filme, que venceu o Grande Prêmio do Júri em Cannes em 1949. 
 
A fotografia em preto-e-branco de Robert Krasner, premiada com o Oscar, dá a O Terceiro Homem sua identidade visual inconfundível, ancorada num jogo perfeito de luzes e sombras, em ângulos inusitados e oblíquos e no uso de lentes para distorcer rostos e cenários. Essas opções de inspiração expressionista valorizam as ruas de uma Viena ainda marcada por inúmeros sinais da guerra, com grandes buracos e pilhas de escombros que a situam como cenário ideal de uma história de traições e luta pela sobrevivência, num ambiente em que o mercado negro era uma das atividades mais ucrativas, como acontece em tempos obscuros. 
 
Inspirado em seu livro homônimo, Graham Greene escreveu aqui o único roteiro de sua carreira, colocando, certamente, em sua composição seu profundo conhecimento de espiões - sobre os quais escreveu e, dizem, também teve ocasionalmente uma experiência própria na função. Reed, por sua vez, conhecia de perto os efeitos da guerra, tendo trabalhado para o Exército Britânico fazendo documentários no período.
 
Todo este embasamento fortalece no filme a sua peculiar mistura de realismo e de um cinismo um tanto cético e desesperado, marcas deste pós-guerra em que um mundo acabou e outro ainda não firmou suas pernas. Tudo entra em foco a partir da chegada a Viena de um forasteiro, o norte-americano Holly Martins (Joseph Cotten), um autor de novelas baratas. Na pior e sem dinheiro, ele se vale de um convite do amigo Harry Lime (Welles), que lhe oferece um emprego. Para seu azar, quando chega, Holly recebe a má notícia de que Lime acabou de morrer.
 
A partir daí, ao invés de voltar, Holly decide investigar o que houve com seu amigo - que teria sido atropelado em condições misteriosas. Convivendo com pessoas como o major britânico Calloway (Trevor Howard) e a atriz e namorada de Lime, Anna Schmidt (Alida Valli), o escritor vai desenrolar uma trama complicada, descobrindo que Lime não era quem ele pensava ser, envolvido com o submundo do mercado negro de penicilina.
 
Suspense é o que não falta nas reviravoltas da história, sustentado em sequências marcantes - como a própria aparição de Lime e a perseguição nos esgotos da cidade, dois pontos altos na iluminação e montagem (de Oswald Rafenrichter). Reed estava mais do que certo na sua escolha de filmar nas ruas de Viena. Isto confere uma força e autenticidade que de outra maneira faltaria a este conto sobre traição e amores frustrados. 
 
Sobre Welles, fora sua impagável interpretação, consta que teria sido o autor da mais célebre fala do filme - em que ele discorre sobre a contradição de que, em 30 anos do domínio sangrento dos Borgias, a Itália tenha produzido gênios como Michelangelo e Leonardo Da Vinci, enquanto a Suíça, com toda a sua fraternidade e 500 anos de paz, não tenha sido capaz de criar mais do que o prosaico relógio de cuco.

Neusa Barbosa


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