Isso não é um enterro, é uma ressurreição

Ficha técnica


País


Sinopse

Mantoa, uma velha mãe viúva, espera a volta de seu único filho vivo das minas da África do Sul, onde ele foi ganhar seu sustento. Mas ele não volta e ela recebe apenas os objetos deste que é mais um na já longa lista de mortos por trás desta viúva, que perdeu marido, filhos e netos. Obcecada pela própria morte, a mulher tem que lidar ainda com o drama da comunidade, diante da iminente construção de uma represa.


Nota Cineweb

PéssimoRuimRegularBomÓtimo


Crítica Cineweb

20/12/2021

O nome sonoro não engana - trata-se realmente de um filme inusitado, original, que traz para a tela a potência cultural de um país, o Lesoto, cuja escassa produção cinematográfica o tornou, até aqui, pouco visível. Deste pequeno reino montanhoso, geograficamente comprimido pela África do Sul, chega esta obra poderosa, assinada pelo diretor Lemohang Jeremiah Moses, vencedora do Prêmio Especial do Júri da seção World Cinema do Festival de Sundance.

Desenvolvido com apoio da Bienal de Veneza, o filme é um mergulho na rica identidade de um país situado nas montanhas, habitado por pessoas e histórias de uma riqueza desconhecida. O novelo narrativo se desenrola a partir de Mantoa (a veterana atriz sul-africana Mary Twala), uma velha mãe viúva que espera a volta de seu único filho vivo das minas da África do Sul, onde ele foi ganhar seu sustento. Mas ele não volta e ela recebe apenas os objetos deste que é mais um na já longa lista de mortos por trás desta viúva, que perdeu marido, filhos e netos.
 
A história se desenvolve em torno desta mulher sofrida e inflexível, imbuída de todas as histórias e tradições locais, obcecada pela própria morte, e cujo ambiente é abalado por ainda outra perturbação - a instalação iminente de uma represa, causando a inundação do vale e do cemitério local, o que implicará na remoção dos mortos.
 
Numa história tão impregnada de morte, instala-se, por contraste, um retrato vívido de uma comunidade camponesa, de criadores de ovelhas que não têm muito de seu, já que até as terras que ocupam lhes foram cedidas em comodato - todas pertencem ao rei. A precisão da direção está em captar este clima local com um tom que oscila entre o realista e o onírico, traduzindo uma realidade que tem pontos de contato com todos os lugares do mundo, em que os pequenos e fracos têm suas vidas desfiguradas pelos donos da terra e do poder, mas contam com um repertório infinito de resistência.
 
No meio de tudo, brilha a estrela Mary Twala, que morreu em julho de 2020, aos 80 anos. Ela sustenta, em seu rosto marcado e corpo franzino, a potência desta imensa personagem que é Mantoa, um símbolo de coragem, desprendimento e luta.

Neusa Barbosa


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