Ilusões Perdidas

Ilusões Perdidas

Ficha técnica


País


Sinopse

Poeta da província, Lucien Cardon apaixona-se por uma nobre casada, Louise de Bargeton. Descobertos pelo marido dela, os dois fogem para Paris, mas não moram juntos. Lucien logo descobre que há muito que aprender sobre a lealdade dos nobres, as desventuras do amor e a absoluta necessidade de ganhar sua vida, o que ele fará no jornalismo de aluguel do início do século XIX na França.


Nota Cineweb

PéssimoRuimRegularBomÓtimo


Crítica Cineweb

24/11/2021

Adaptando o colossal romance de Honoré de Balzac, o diretor Xavier Giannoli compõe um cínico e múltiplo painel da França da virada do século 18 para o século 19, permanecendo fiel ao interesse do celebrado escritor no contraste entre a província e a capital, as diferenças de classe e a contraditória explosão do jornalismo, com direito à exploração das fake news.
 
Nada de novo sob o sol, parecem dizer Giannoli e Balzac, mas quanto estilo permeia esta reflexão irônica, nunca destituída de verve e de um olhar que permite vislumbrar que há outros valores - até porque eles estão visivelmente sendo aviltados. Mas é aderindo ao singular naturalismo de Balzac que o diretor apresenta seu protagonista, o jovem poeta Lucien Chardon, que aliás se apresenta como Lucien de Rubempré (Benjamin Voisin). Rubempré é o sobrenome de sua mãe nobre, mas ele não tem direito a títulos, trabalhando na tipografia de seu cunhado para ganhar a vida. 
 
A poesia é seu sonho e sua musa, a baronesa Louise de Bargeton (Cécile de France), evidentemente casada. E da fusão destes dois sonhos impossíveis é que Lucien forja uma mudança para Paris, onde sua musa não tarda a ter um acesso de pragmatismo, influenciada pela prima, a poderosa marquesa D’ Espard (Jeanne Balibar), e por outro nobre interessado nela, o barão de Chatêlet (André Marcon). 
 
Privado de suas referências da província e desiludido no amor, Lucien encontra outro ambiente no então fervilhante mundo dos pequenos jornais, onde põe sua pena a serviço de críticas literárias e teatrais, que são pagas por encomenda e dão lucros aos inescrupulosos donos das publicações. Agora guiado por um novo amigo, o editor de um desses jornais, Etienne Lousteau (Vincent Lacoste), Lucien entra fundo no processo de perda da inocência.
Através das andanças de Lousteau e Lucien, apresenta-se uma Paris de cena teatral efervescente, permitindo ao filme expor as credenciais da primorosa direção de arte, de Bruno Via e Etienne Rhode, que coloca o espectador dentro da vitalidade de uma cidade que nunca dorme e se entrega sem tréguas a todos os vícios. 
 
É no teatro que Lucien encontra um novo amor, a atriz Coralie (Salomé Dewaels), o que lhe permite mergulhar mais ainda neste turbilhão de prazeres fugazes, deixando para trás seu antigo projeto de tornar-se poeta. Mas sua personalidade original não o abandona assim e Lucien viverá até o fim o confronto com esta sociedade cujos mecanismos não pode controlar, e que abriga expoentes como um rival escritor, Nathan (Xavier Dolan, melhor como ator do que como diretor), um poderoso editor, Dauriac (Gérard Depardieu) e o singular comandante de uma claque de vaias ou aplausos de aluguel, Singali (Jean-François Stévenin).
 
Neste ambiente em que tudo se compra e tudo se vende, inclusive o sucesso literário e teatral, num país que ainda oscila entre a adesão à monarquia e uma sociedade mais liberal, este jornalismo de aluguel, que se esmera com gulodice na destruição de reputações a bom preço, pode-se lembrar de O Mercado de Notícias, de Jorge Furtado, que se referia a uma peça teatral do século 17 para refletir sobre o papel da imprensa. Como se vê, um tema atualíssimo, num século como o nosso, em que as fake news disputam espaço com verdades cientificas e as redes sociais potencializam como nunca seus estragos.

Neusa Barbosa


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