O Novelo

O Novelo

Ficha técnica


País


Sinopse

Após o nascimento do quinto filho, um homem abandona a família. Poucos anos depois, a mãe também morre. Os dois irmãos mais velhos assumem o comando do núcleo familiar, cada um tomando rumos diferentes. Quando recebem a notícia de que um velho está em coma no hospital e que pode ser seu pai desaparecido, eles se reúnem para decidir o que fazer.


Nota Cineweb

PéssimoRuimRegularBomÓtimo


Crítica Cineweb

22/11/2021

Longa de estreia da diretora Cláudia Pinheiro, O Novelo coloca em cena uma dramaturgia de emoção conjugada em tom sutil, investindo na mudança de alguns clichês dos dramas familiares. Como o fato de colocar em foco um grupo de cinco irmãos, todos homens e negros, de classe média ou alta, vivendo seus dilemas pessoais. Ou seja, também normalizando a presença de uma família negra no centro dos acontecimentos, fora de um contexto de violência, o que deveria ser comum há muito tempo num país de maioria afrodescendente, como o Brasil.
 
Partindo de um roteiro de Nanna de Castro, adaptando a própria peça, o filme honra esse parentesco teatral dando prioridade aos personagens e cavando espaço para sua expressão e transparência numa história cheia de abraços, carinhosa com estes cinco órfãos. A presença feminina, da mãe, d. Alzira (Isabél Zuaa), infiltra-se amorosamente no tecido emocional do quinteto.
 
Abandonados pelo pai quando o caçula, Cacau (Sidney Santiago Kwanza), acabara de nascer, os irmãos cresceram sob a liderança do mais velho, Mauro (Nando Cunha, prêmio de melhor ator em Gramado), assumindo o lugar da mãe, que morreu, com a ajuda de Cicinho (Rocco Pitanga). A situação de cuidado mútuo é apenas um dos detalhes de um filme que desafia os estereótipos ligados à maternidade e à masculinidade - prova disso está nas brincadeiras dos irmãos, quando crianças, com a maquiagem da mãe e no manejo do tricô. 
 
Sem recorrer a grandes arroubos emocionais ou sofisticações estéticas que poderiam distrair a história do que ela pretende ser, O Novelo reserva energia para a conexão íntima destes homens entre si, apelando ao próprio sentimento de irmandade, apesar das profundas diferenças entre eles - evidentes nos choques entre o advogado José Carlos (Sérgio Menezes), machão e espalhafatoso, e o intelectualizado psicanalista gay João (Rogério Brito). 
 
É notável como, num filme dirigido por uma mulher, se estabelecem com tanta nitidez estas identidades masculinas em crise - que é resultado da ampla pesquisa realizada pela roteirista Nanna de Castro para escrever sua peça. O filme fecha-se em torno deste pequeno núcleo familiar com a bravura erroneamente atribuída apenas às comédias argentinas, deixando de lado uma referência mais incisiva à política ou à religião, optando apenas pelo que melhor define ou incomoda cada personagem - caso dos problemas de Cicinho com a ex-mulher para ver as filhas. 
 
A questão do déficit de paternidade é concentrada na localização de um homem velho, em coma no hospital, que pode ser o pai desaparecido. As diferentes reações dos irmãos diante da situação sustentam o eixo principal do filme e sedimentam um retrato sensível de cinco pessoas, que por acaso são homens. O Novelo é a mais pura expressão do humanismo, do intimismo possível, com muito afeto - façanha respeitável em tempos tão duros.

Neusa Barbosa


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