Charuto de mel

Ficha técnica


País


Sinopse

Selma é filha de um casal de argelinos que imigraram para a França. Apesar de francesa, ela também se considera argelina. Saindo da adolescência e entrando para a vida adulta, ela descobre o amor e o sexo, mas também uma sociedade machista que sufoca os desejos femininos.


Nota Cineweb

PéssimoRuimRegularBomÓtimo


Crítica Cineweb

08/11/2021

O nome da cineasta franco-argelina Kamir Aïnouz pode parecer, aos mais distraídos, o do seu meio-irmão, o cearense de ascendência argelina Karim Aïnouz. Mas não são apenas os nomes quase homófonos e o parentesco que unem ambos. Cigarro de Mel, primeiro longa da cineasta, tem, tal qual a maior parte da obra do brasileiro, interesse em colocar ao centro figuras femininas e seu processo de amadurecimento.
 
No caso, trata-se da jovem Selma (Zoé Adjani, sobrinha de Isabelle Adjani), presa entre duas culturas, pressões sociais e a vontade de entrar na vida adulta de uma vez por todas. O filme começa com uma citação do romance A Egípcia, de Gilbert Sinoué, que traz ao centro uma personagem feminina dividida entre a submissão e a revolta. Um tema que rondará a protagonista o tempo todo.
 
Histórias sobre personagens divididos entre a tradição e a modernidade, a herança cultural e um mundo novo, não são novas, mas talvez a novidade esteja no fato de que vozes femininas estão contando essa histórias agora, e colocando mulheres ao centro. Aïnouz parte de experiências próprias e situa a narrativa no começo dos anos de 1990, quando a Argélia se tornava cada vez mais violenta.
 
Selma vive com os pais nos subúrbios de Paris. Ele (Lyes Salem) é um advogado, e a mãe (Amira Casar), uma ginecologista que abandonou o trabalho para cuidar da filha desde que a garota nasceu. A jovem acaba de ser aceita numa escola especializada em administração de empresas e que se revela um ambiente competitivo, onde todos e todas parecem ter muito mais experiência de vida do que ela.
 
Preconceitos raciais não são novidade na vida de Selma. Ela ouve de um professor que “nem parece argelina” mas, apesar de nascida na França, ela se sente argelina, o que lhe confere uma espécie de “dupla identidade social”, que, às vezes, combina as duas nações, às vezes as coloca em conflito.
 
A mãe, apesar de ser contra casamento arranjados, não se importa de arranjar possíveis pretendentes para a filha, que fica curiosa com os rapazes que conhece, mas não a ponto de se envolver com eles, até porque está interessada num colega de escola, Julien (Louis Peres).
 
A transformação de Selma é pelo choque. O mundo real, as amizades e os relacionamentos amorosos, em especial, são bastante diferentes daquilo que ela aprendeu nos livros. O conflito surge especialmente do fato de ela querer forjar sua própria personalidade, num mundo que, embora dito liberal, ainda sufoca muito as mulheres. O sexo pode ser libertador nesse sentido, mas também envolve outras questões complexas.
 
Trabalhando com a diretora de fotografia Jeanne Lapoirie (120 Batimento por minuto), Aïnouz banha seu filme num tom dourado que, não surpreendentemente, parece mel. E, na medida em que a narrativa avança, a diretora, que também assina o roteiro, transforma a narrativa pessoal de Selma em algo maior, que diz muito sobre toda uma primeira geração de filhas de imigrantes.

Alysson Oliveira


Trailer


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