Uma história de família

Uma história de família

Ficha técnica


País


Sinopse

Criador da empresa Family Romance, que fornece pessoas para atuarem em papeis específicos a gosto do freguês, Ishii é contratado por uma mulher para fazer-se passar pelo pai de sua filha, Mahiro, de 12 anos, passeando com ela e suprindo a falta que ela sente dessa figura paterna. Outros contratam pessoas para outras situações.


Nota Cineweb

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Crítica Cineweb

25/10/2021

O tempo passa e o veterano diretor alemão Werner Herzog não perde a inquietação, sempre arriscando entrar em novos territórios, renovando uma insaciável curiosidade sobre o mundo ao seu redor. Tudo isso está cristalino em sua docuficção Uma História de Família, exibida fora de competição no Festival de Cannes 2019. Filmado no Japão e falado em japonês, esta obra inusual do diretor ficcionaliza uma situação inusitada mas já real - empresas que “alugam” pessoas para interpretarem papeis, como de parentes distantes ou problemáticos, em situações específicas - como substituir um pai alcoólatra para levar sua filha ao altar. A história principal, que percorre todo o filme, inclui uma mãe solteira (Miki Fujimaki) que contrata Ishii (Yuichi Ishii), o criador da empresa Family Romance, para passar-se pelo pai de Mahiro (Mahiro Tanimoto), menina de 12 anos, suprindo uma carência sentida pela menina por toda a vida devido à ausência paterna.
 
Evidentemente, por mais estudada que seja a situação, seus desdobramentos escapam dos controles pretendidos, já que algum tipo de envolvimento e emoções são inevitáveis. Como sustentar os limites entre uma situação encenada e uma real, é o que o próprio Ishii começa a indagar-se. Onde reside a autenticidade de uma família real, como a  que ele mesmo tem? De várias maneiras, trata-se de um filme bastante intrigante, em que Herzog aproveita para discutir alguns aspectos do desenvolvimento tecnológico, como uma cena num hotel, o Henn Na, em que o atendimento na recepção é feito por robôs assustadoramente reais, cujo idioma os clientes podem escolher mediante um painel acoplado no balcão.
 
O que será este admirável mundo novo que já está se materializando diante de nós, é o que Herzog está indagando. Que tipo de futuro se pode esperar em tempos em que já é possível encomendar atores para interpretar parentes ausentes, doentes ou incômodos, ou viver fantasias, acatando a representação como uma espécie de vida substituta ? Nesse território instável em que se entrelaçam realidade e ficção, dentro e fora da tela, o diretor alemão tece seu relato, que foi filmado de maneira minimalista. Ele mesmo empunhou a câmera digital, deixando a cargo de seu filho, Simon Herzog, o comando de drones que captam algumas cenas aéreas, eventualmente de grande beleza - como a que mostra as cerejeiras em flor em Tóquio onde se dá o primeiro passeio entre Mahiro e seu pai substituto.
 
A intensidade e o comentário sutil aqui estão nos detalhes e eles não faltam, seguindo o olhar curioso do alemão diante da realidade japonesa, incorporando cenas como a da representação de uma luta de samurais por jovens num parque e a prece à Raposa num tempo repleto de estátuas desse animal.

Neusa Barbosa


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