O Fio Invisível

Ficha técnica


País


Sinopse

Amanda e sua filha pequena Nina acabam de instalar-se numa casa de campo, onde passarão o verão. Assim que chegam, conhecem a vizinha, uma bela mulher chamada Carola, que conta uma história estranha sobre seu filho, Davi. A partir daí, as vidas de ambas mudam.


Nota Cineweb

PéssimoRuimRegularBomÓtimo


Crítica Cineweb

12/10/2021

A distância de resgate, título original de O fio invisível e também do romance no qual é baseado, é um espaço máximo que separa uma mãe de um filho ou filha. Uma distância possível de ser percorrida rapidamente no caso de um acidente, para que a criança possa ser socorrida. É também uma ilusão para a protagonista do longa, Amanda (María Valverde), cujo paraíso doméstico começa a ruir no momento em que chega a uma casa para passar o verão com a filha pequena, Nina (Guillermina Sorribes Liotta), enquanto espera o marido (Guillermo Pfening) chegar.
 
Dirigido pela peruana Claudia Llosa (A teta assustada), com roteiro assinado por ela e a autora do romance original, a argentina Samantha Schweblin, o longa é um terror psicológico e sutil sobre as aflições da maternidade. Construída de maneira etérea, a narrativa transita entre o sonho e o pesadelo, com vozes dissonantes. Percebemos que Amanda, em off, conversa com alguém, e logo descobrimos que é com Davi, o filho pequeno de Carola (Dolores Fonzi), uma vizinha exuberante que conhece assim que se instala na casa. O marido dela (Germán Palacios) cria cavalos, e a chegada de um garanhão em especial rompeu a paz familiar, dando início aos problemas.
 
Ambas mães de crianças pequenas, a amizade chega rápido. Não demora muito, Carola está contando uma história estranha sobre seu Davi, interpretado por Emilio Vodanovich e Marcelo Michinaux. O garoto não é mais o mesmo após sofrer uma intoxicação. "É um monstro", diz a mãe. Mas ela, em seu desespero materno, tem também sua parcela de culpa, como revelará depois. A partir da história dessa criança “monstruosa”, a vida de Amanda entra num inferno, repleta de inseguranças e medos.
 
Llosa, cujos filmes sempre transitaram num terreno de estranhamento, volta a filmar na América Latina depois de uma incursão não muito feliz no cinema dos EUA, com Marcas do Passado. Aqui, ela está no seu terreno seguro. Não há uma cena desperdiçada ou excessiva em O fio invisível. Tudo, por mais deslocado que possa parecer no início, contribui para a construção da narrativa aflitiva, que se acumula até seu final melancólico.
 
Em cena, duas visões de mundo, duas visões de maternidade. Amanda diz que “um filho é para sempre”, e Carola discorda. É nessa dialética, entre o ser por completo e o não-ser que se dá a trama do longa, cujo tempo narrativo vai e volta, toma desvios e retoma ao seu caminho principal, mantendo muito da estrutura do romance original. Schweblin é uma das maiores vozes da literatura latino-americana atualmente, e não demoraria muito para o cinema a descobrir. Seus romances e contos são altamente cinematográficos, constroem imagens fortes e marcantes.
 
Llosa aqui vai pelo caminho de um filme enigmático, mas não impenetrável. Ela deixa pistas ao longo do tempo para a compreensão do que está querendo dizer. Ela também é uma das diretoras que, atualmente, melhor lida com os medos e ansiedades da mulher contemporânea. Em A teta assustada, por exemplo, uma jovem coloca uma batata em sua vagina para se proteger de estupros, no Peru dos anos de 1980.
 
O surrealismo de Llosa deve tanto a Jorge Luis Borges quanto a Lucrécia Martel (especialmente em seu retrato das mulheres da classe média argentina). Contribui muito para o clima a trilha sonora de Natalie Holt, que sublinha a sensação de terror iminente o tempo todo na jornada de Amanda, cuja descoberta é de que a tragédia pode acontecer, mesmo ela estando ao lado de sua filha, ou seja, não existe uma verdadeira distância de resgate.

Alysson Oliveira


Trailer


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