Entre as linhas do jornal

Entre as linhas do jornal

Ficha técnica


País


Sinopse

O cotidiano na redação de um jornal fictício de Boston, o Back Bay Mainline, e os dramas e amores dos funcionários e funcionárias, numa época em que o jornalismo da contracultura ainda era uma opção.


Nota Cineweb

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Crítica Cineweb

12/10/2021

Mais de 40 anos depois de seu lançamento, a comédia Entre as linhas do jornal, de Joan Micklin Silver, talvez desperte mais interesse como documento de uma época, o final dos anos de 1970, do que por suas qualidades cinematográficas. Feito na época em que a contracultura ainda era descolada e o jornalismo independente, forte, hoje pode ser olhado com um olhar nostálgico e um tanto condescendente pelo seu espírito de rebeldia e boas intenções.
 
Com alguns rostos no elenco que ficaram famosos nos anos seguintes – incluindo Jeff Goldblum –, o longa é uma sátira às redações de jornais e suas figuras folclóricas, como o crítico musical, o repórter-estrela, a fotógrafa antenada, até o rapaz que vende jornal na rua e mora debaixo de uma máquina de pinball no próprio escritório. A publicação ficcional no longa é o Back Bay Mainline, cujo logotipo é bem parecido com o do Village Voice.
 
O momento é o do pós-movimento hippie, quando uma desilusão parece tomar conta das personagens, que mal olham para o seu passado – no qual, certamente, foram hippies, ao menos, boa parte deles e delas. A juventude dessas pessoas foi numa época de protestos e da investigação do Watergate, quando o jornalismo detinha um poder que parece ter perdido poucos anos depois. Harry (John Heard), por exemplo, já foi uma estrela da reportagem, suas matérias causavam alvoroço. Hoje, ciente de que não mudou o mundo, espera que apareça algo que o empolgue novamente. Ele também vive um relacionamento intermitente com uma fotógrafa, Abbie (Lindsay Crouse).
 
O roteiro do longa é de Fred Barron, que, anos mais tarde, ficaria famoso escrevendo séries cômicas para a televisão, como Caroline in the City, além de ter trabalhado em jornais de Boston, que, provavelmente, serviram de inspiração aqui. Talvez não seja por acaso que Entre as linhas do jornal tenha uma estrutura que lembre um piloto de sitcom, com vários personagens e tramas que poderiam ser alongadas e exploradas ao longo de meses.
 
Os personagens enfrentam dramas como a queda nas vendas do jornal, um colega que faz de tudo para conseguir um contrato para escrever um livro, e a inveja que os outros têm dele, ou uma redatora que se conformou em ser coadjuvante de jornalistas homens. Enquanto o longa pula de um episódio a outro, fica clara a sensação de desilusão que começa a se sedimentar, algo que seria reforçado na década que se avizinhava, com a ascensão dos neocons e o fortalecimento do neoliberalismo, soterrando os sonhos e utopias das décadas anteriores.

Alysson Oliveira


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