Notícias de Casa

Ficha técnica

  • Nome: Notícias de Casa
  • Nome Original: News from home
  • Cor filmagem: Colorida
  • Origem: Bélgica
  • Ano de produção: 1976
  • Gênero: Documentário
  • Duração: 85 min
  • Classificação: 12 anos
  • Direção: Chantal Akerman
  • Elenco:

País


Sinopse

No começo dos anos de 1970, antes de se tornar cineasta, a belga Chantal Akerman tentou a vida em Nova York. Sua mãe lhe mandava cartas constantemente. Anos depois, a partir delas, a cineasta compõe um filme que é, ao mesmo tempo, sobre a relação entre mãe e filha e a cidade de Nova York.


Nota Cineweb

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Crítica Cineweb

06/10/2021

Talvez seja indescritível o poder e senso estético que emanam do documentário Notícias de Casa, que a belga Chantal Akerman dirigiu em meados dos anos de 1970. O longa funciona de várias maneiras: como o retrato conturbado, via cartas, da relação entre uma mãe e uma filha, um registro antropológico e etnográfico de uma Nova York específica, uma sessão de terapia da própria cineastas ou, ainda, uma meditação sobre a fugacidade do tempo, entre tantas outras possibilidades. É uma espécie de filme caseiro, mas muito bem filmado, com uma fotografia granulada – assinada por Jim Asbell e Babette Mangolte – com tons que remetem a um passado, ao mesmo tempo, familiar e etéreo.
 
Tudo começa com Akerman morando em Nova York, no começo dos anos de 1970, onde tentava a sorte e recebia cartas de sua mãe, várias cartas com notícias de casa. A partir dos textos destas, lidos pelas própria cineasta numa voz em off, o filme se constrói com imagens da cidade. Ouvimos notícias domésticas, pequenos e grandes problemas dos familiares e vizinhos, quem casou, quem teve filho, quem morreu. Mas também palavras de uma mãe preocupada com sua filha.
 
O documentário estabelece uma relação dialética entre texto e imagem. Não sabemos o conteúdo das respostas de Akerman – quando há! Mas seu texto pessoal se faz nas imagens – captadas anos depois quando ela volta a Nova York, já uma cineasta relativamente conhecida, com filmes como Jeanne Dielman e Eu, tu, ele, ela. O que se vê são as ruas, os transportes, as lanchonetes, mas, acima de tudo, as pessoas. Não há nenhum interesse no glamour da cidade, pelo contrário, e sim em gente simples, que coloca a cadeira na calçada no final da tarde, que pega o metrô sujo e lotado.
 
Da sensibilidade de Akerman e da dupla na direção de fotografia nascem planos potentes e belos em sua simplicidade. Dentro de um carro, a câmera percorre por longos minutos as ruas em Hell’s Kitchen, acompanhando acontecimentos banais mas que dão conta de dinâmicas complexas. Em certa medida, Akerman sempre foi uma espécie de diretora hopperiana, tomando a solidão dos quadros do pintor norte-americano para seus filmes. Mas aqui, especialmente pelo cenário (o mesmo que o dele), ela ressalta ainda mais essa característica. A solidão das pessoas cercadas de pessoas no metrô é tão evidente que chega a doer. A composição de quadros no filme também, em vários momentos, lembra os enquadramentos dele.
 
Essa estratégia funciona como uma espécie de anulação do eu, o indivíduo tragado pelas massas, pela sociedade. O que é a personagem Jeanne Dielman senão isso, uma mulher cujo sentido de agência foi silenciado por anos de submissão ao patriarcado, agindo de acordo com esse - mesmo quando parece estar subvertendo-o, o está fazendo para agradar aos homens e sustentar o filho. Aqui, isso ainda é mais evidente quando não temos indivíduos, mas grupos destituídos de maior especificidade.
 
As cartas dela para a mãe se tornam cada vez menos frequentes. A preocupação da mãe por ela, ainda maior. Pouco antes de morrer, em 2015, Akerman lançou Não é um filme caseiro, no qual filmou a si mesma e sua mãe, Sylvaine, no seu apartamento em Bruxelas. O longa poderia ter se chamado Notícias de Casa 2, tamanho o diálogo que estabelece com o anterior. É um novo capítulo nessa relação entre mãe e filha, com quase meio século e mais amadurecimento de distância.
 
As imagens finais de Notícias de Casa são, como tudo aqui, carregadas de força, sentimento e sentido, e ressoam até hoje. Mais do que um cinema de nostalgia, Akerman fez um filme perene, relevante e emocionante, apesar da maneira distanciada como ela filma. Num primeiro momento, parece gélido por sua austeridade formal, mas conforme se adentra, suas camadas se relevam e o longa se mostra como um filme de amor – de uma mãe por uma filha (e vice-versa) e de uma cineasta por uma cidade, numa relação carregada de conflitos e sentimentos, sendo que, certamente, um deles é amor.

Alysson Oliveira


Trailer


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