A dona do barato

Ficha técnica


País


Sinopse

Patience Portefeux é tradutora da polícia numa delegacia que acompanha interceptações telefônicas de traficantes, geralmente de origem árabe, idioma que ela domina. Um dia, o acaso a coloca no centro de uma operação que envolve um grande carregamento de haxixe. Cheia de dívidas, Patience desenvolve um esquema de venda, contando com dois pequenos traficantes, de quem ela esconde sua identidade.


Nota Cineweb

PéssimoRuimRegularBomÓtimo


Crítica Cineweb

20/09/2021

Dotada de uma persona cinematográfica marcante, entrando perfeitamente e com frequência em papeis dramáticos, Isabelle Huppert diverte-se e ao seu público fiel ao interpretar uma tradutora da polícia que se torna a rainha do tráfico de haxixe.
 
La Huppert interpreta Patience Portefeux, tradutora de árabe numa delegacia que lida com investigações sobre drogas. Eficiente e sagaz, ela tem, no entanto, uma personalidade dissimulada. Sua fleuma esconde uma profunda saudade de um passado em que ela e sua mãe (Liliane Rovère) - hoje internada numa residência para idosos - viviam em grande estilo, viajando. Eram os tempos em que seu pai, que morreu há muito, as mantinha com todo conforto, desfrutando dos lucros de atividades ilegais que ela não detalha.
 
Viúva há 20 anos, mãe de duas filhas adultas (Iris Bry e Rebecca Marder), namorando seu chefe, o inspetor Philippe (Hippolyte Girardot), Patience parece integrada à sua rotina. A insatisfação que ela esconde com essa calma aparente será desafiada por um acaso.
 
Ouvindo a interceptação telefônica de uma gangue que trará do Marrocos para a França uma grande partida de haxixe, Patience identifica a ligação de um jovem, Afid (Yasin Houchida), para sua mãe - que não é outra senão Kadidja (Farida Ouchani), a mais gentil das funcionárias da residência de idosos onde vive sua mãe. Disfarçando rapidamente sua surpresa, Patience ilude seus chefes com uma tradução falsa da conversa e entra num circuito que a tornará parte da história.
 
A grande graça do filme é acompanhar as manobras da tradutora para fazer um jogo duplo sutil, mantendo suas funções e também usando outra das conversas que ela ouvia para colocar no mercado o haxixe desviado - trazendo, com isso, o dinheiro de que ela tanto precisa para resgatar suas dívidas.
 
É certamente, uma história amoral a que nos conta o diretor Jean-Paul Salomé, adaptando o livro de Hannelore Cayre, sua corroteirista, para compor um relato em que os bagrinhos têm alguma chance de lucrar com um jogo bruto em que só os maiorais levam a melhor. 
 
Fosse outra atriz que não a talentosa Huppert, talvez ficasse mais difícil torcer para que não seja pega esta ardilosa atravessadora dos negócios de uma gangue, que começa a lucrar com a venda, sempre em dinheiro vivo, tendo do outro lado do jogo dois notórios peixes pequenos do tráfico, a dupla “Adesivo” (Rachid Guellaz), e “Cereal” (Mourad Boudaoud). Diante deles, inclusive, a tradutora ostenta um visual de marroquina, usando um largo e longo vestido e um hijab, contando com seu domínio do árabe para disfarçar sua identidade.
 
Um aspecto que contribui para que torçamos por ela é que ela tem algum coração. Sabe que o sistema policial não hesita em colocar na prisão estes garotos árabes, às vezes por poucas gramas de droga, para, como ela diz, serem radicalizados na prisão. Mas é fato que ela está pensando mais em seu próprio projeto pessoal de uma vida diferente desta rotina sem futuro em que ela vivia até aqui. Para isso, ela conta com os talentos igualmente melífluos de sua vizinha, a síndica de seu prédio, a chinesa Colette (Nadja Nguyen). Mais do que ninguém, estas duas encarnam o empreendedorismo em sua mais alta expressão, desprezando o falso moralismo de uma sociedade para lá de hipócrita. O filme, afinal, não quer passar nenhuma mensagem, é só diversão mesmo e isso ele oferece com prazer.

Neusa Barbosa


Trailer


Deixe seu comentário:

Imagem de segurança