O baile das loucas

O baile das loucas

Ficha técnica


País


Sinopse

França, 1885. Intelectualizada e independente, Eugénie Cléry incomoda o pai com seus modos. Mas sua alegação de que tem poderes mediúnicos lhe dá o pretexto para interná-la no hospital Pitié-Salpêtriére, onde o dr. Charcot conduz experiências com mulheres rebeldes, desajustadas ou marginais. A enfermeira-chefe, Geneviève, interessa-se pelo dom de Eugénie, porque deseja comunicar-se com a irmã morta.


Nota Cineweb

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Crítica Cineweb

13/09/2021

Conhecida internacionalmente por seu papel de Shosanna em Bastardos Inglórios (2009), a atriz francesa Mélanie Laurent vem desenvolvendo uma sólida carreira também como diretora, em que o drama de época O Baile das Loucas vai representar certamente um ponto alto. 
 
Partindo do romance homônimo da autora Victoria Mas, a diretora revela um mundo assustadoramente machista na França do final do século XIX, centrando seu foco nos sinistros mecanismos de poder e subjugação das mulheres em hospitais psiquiátricos. 
 
Rica, bela e intelectualizada, Eugénie Cléry (Lou de Laâge) é uma moça que só quer ser livre e independente. Valendo-se da cumplicidade do irmão, Théophile (Benjamin Voisin), ela escapa de casa, passando as tardes em cafés em Montmartre, fumando e lendo seus livros favoritos, como As Contemplações, de Victor Hugo. Decididamente, seus modos desagradam seu pai (Cédric Khan), que a preferiria recatada e do lar. A gota d’água é quando Eugénie demonstra à avó (Martine Chevallier) que pode comunicar-se com os espíritos. Depois disso, o pai decide interná-la no hospital Pitié-Salpêtrière.
 
Fundado no século XVIII como uma prisão para abrigar indesejáveis - pobres, mendigos, marginais -, o hospital agora é o centro das experiências do dr. Jean-Martin Charcot (Grégoire Bonnet), um pioneiro da psiquiatria e da hipnose. As internadas são mulheres, ali enviadas por seus pais ou maridos, depois de algum comportamento tido como desajustado ou rebelde, sem contar algumas ladras ou prostitutas. Desnecessário dizer que muitas ali não têm qualquer transtorno psíquico, caso de Eugénie, que enfrenta desespero e horror ao se ver privada da liberdade. No dormitório coletivo, várias mulheres ali aprisionadas, impotentes para lutar contra sua situação, acabaram mesmo adoecendo.
 
Mélanie Laurent assume o papel de Geneviève Gleizes, enfermeira-chefe encarregada de manter a ordem do local. Seu comportamento impessoal é abalado quando Eugénie revela uma informação que não teria como saber, um sinal de que pode comunicar-se com Blandine, a irmã morta de Geneviéve, selando uma cumplicidade que terá várias consequências.
 
A diretora mostra um bom comando no retrato preciso deste ambiente desolador, centrando foco na dinâmica de opressão para o controle dos comportamentos. As rebeldes são domadas com hidroterapia, consistindo de banhos com água repleta de gelo, ou o isolamento nas antigas celas da prisão, duas experiências que não podem produzir senão terror. 
 
Outro aspecto de denúncia expõe os mecanismos que permitem abusos contra estas mulheres e que encontra sua maior expressão no evento que dá nome ao filme. Anualmente, o hospital dá um baile, a que as internas comparecem fantasiadas à sua vontade e onde podem entrar pessoas de fora, muitos sendo homens dispostos a ridicularizar ou mesmo tirar vantagens destas mulheres a quem a sociedade despersonaliza e nega autonomia, sem protegê-las de fato.
 
É difícil assistir ao filme sendo mulher. Mas, ao mesmo tempo, ninguém melhor do que uma mulher pode avaliar o alcance deste processo sistemático de despersonalização e sujeição. Fora Eugénie, há outras pacientes notáveis, como Louise (Lomane de Dietrich), jovem e bela cobaia habitual das sessões de hipnose do dr. Charcot diante de seus alunos e que se torna objeto de um desejo doentio por parte de um deles (Christophe Montenet). E pensar que tudo isso era permitido em nome da ciência. 
 
O aspecto da espiritualidade de Eugénie é tratado com discrição e não desvia o filme de seu compromisso maior e libertário. 

Neusa Barbosa


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