Meu nome é Bagdá

Ficha técnica


País


Sinopse

Bagdá tem 17 anos e vive na Freguesia do Ó, na cidade de São Paulo. Sua grande paixão é o skate, e ela passa boa parte do tempo com um grupo de rapazes skatistas, sempre se sentindo excluída por ser a única garota. Tudo muda quando conhece outras jovens apaixonadas pelo esporte, como ela.


Nota Cineweb

PéssimoRuimRegularBomÓtimo


Crítica Cineweb

08/09/2021

Depois da medalha de Rayssa Leal nas Olimpíadas, em agosto de 2021, Meu Nome é Bagdá, sobre uma jovem skatista da periferia de São Paulo, ganha um interesse especial. Não que o filme dependesse desse tipo de publicidade, mas a vitória da esportista é uma feliz coincidência. Em seu segundo longa, a cineasta paulistana Caru Alves de Souza, volta a um tema que lhe parece caro, como em seu longa de estreia, De Menor: o papel e a posição da juventude no Brasil contemporâneo.
 
E, a julgar por esse filme, a juventude veio para transformar – em especial as jovens mulheres têm essa capacidade. Após séculos de silenciamento e opressão, nesse momento, elas estão lutando pelo protagonismo. Bagdá é interpretada com verve, sagacidade e doçura pela estreante Grace Orsato, que também é skatista como a personagem. Vivendo na Freguesia do Ó, com a mãe, Micheline (Karina Buhr), e as irmãs, Joseane (Marie Maymone), e Bia (Helena Luz), seu escape é o skate, mas ela é solitária nessa sua paixão.
 
Adaptando sua história de um romance infanto-juvenil homônimo, a diretora (que co-assina o roteiro com Josefina Trotta) muda o gênero do protagonista e transforma numa menina, trazendo ao centro um grupo ainda mais deixado à margem dentro do universo dos skatistas: as garotas e mulheres praticantes do esporte. Bagdá irá descobrir que não é a única, quando conhece outras skatistas como ela, e aí sua vida se transforma.
 
O registro naturalista do filme e a fotografia sóbria de Camila Cornelsen trazem um tom quase documental ao longa, acompanhando a vida de Bagdá, sua mãe e irmãs, amigas e outras mulheres que as cercam – como a dona de um bar (Gilda Nomacce) e a cabeleireira interpretada por Paulette Pink. No filme, Caru constrói um universo de mulheres de diversas idades, ligadas por uma rede de apoio emocional e material. É daí que emana um sentimento de utopia do filme. Juntas, elas lidam com dificuldades financeiras, agressões, dores e compartilham alegrias.
 
O naturalismo do filme, no entanto, em momentos inesperados, dá espaço a uma outra utopia, ao sonho. Quase que como uma fantasia, a realidade se esfacela e, em certas cenas, de maneira casual, o onírico toma conta, seja num desfile de modas improvisado ou numa dança com um martelo em punho, que transita entra a raiva e o lúdico após uma agressão. Nessas intervenções, com um quê de surreais, a diretora mostra total comando de seu ofício. É preciso muita segurança na direção para irromper em cenas como essa, quase aleatórias, mas que carregam significados para a personagem e a narrativa.
 
Meu Nome é Bagdá é também um filme sobre a ocupação da cidade, transformando-a em espaço de liberdade. Dessa forma, é necessários se impor, e a protagonista e seus colegas estão no processo de descoberta exatamente disso. E buscam não apenas a tomada do espaço, mas também de seus corpos, tornando-os mais do que objetos do desejo masculino.
 
O longa ganhou, entre outros, o prêmio de melhor filme da Mostra Generation 14plus (que exibe longas sobre a vida de adolescentes e crianças), no Festival de Berlim de 2020, no qual fez sua estreia mundial em fevereiro de 2020. E com Meu Nome é Bagdá, Caru se estabelece como uma jovem diretora a se prestar atenção. Sua capacidade de falar sobre e com a juventude periférica – um público carente de se ver na tela, especialmente de forma positiva como é mostrado aqui – é bem-vinda e notável.

Alysson Oliveira


Trailer


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