Por que você não chora?

Ficha técnica


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Sinopse

Jéssica vem de uma família do interior de Goiás e vai para Brasília estudar Psicologia. Ela participa do atendimento a uma paciente, Barbara, que tem a vida toda desestruturada por causa do transtorno borderline, o que a levou a perder a guarda do filho. Vindas de famílias e classes sociais muito diferentes, elas começam a trocar experiências.


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Crítica Cineweb

01/09/2021

Por que você não chora?, da realizadora brasiliense Cibele Amaral, mergulha de cabeça no tema do transtorno mental e do suicídio, construindo uma narrativa em torno de duas mulheres - a estagiária de Psicologia Jéssica (Carolina Monte Rosa) e uma paciente, Bárbara (Bárbara Paz). Bárbara tem toda sua vida desestruturada pelos efeitos do transtorno borderline. Jéssica é introvertida e incapaz de compartilhar emoções ou manter relacionamentos, exceto com a irmãzinha, de quem ela é protetora, projetando nela uma série de expectativas.
 
O universo feminino predomina aqui, literalmente - 90% do elenco é feminino, incluindo Elisa Lucinda, Cristiana Oliveira e Maria Paula, além de 75% da equipe técnica. O tema do transtorno borderline, por sua vez, é caro à diretora Cibele Amaral, que revelou sofrer dele no debate do Festival de Gramado 2020, em que o filme participou da competição nacional, vencendo um Prêmio Especial do Júri para Elisa Lucinda.  
 
Há várias questões complexas enfeixadas no roteiro, de autoria da diretora, inclusive questões de classe - Bárbara vem de uma elite que tem acesso a estudo e viagens, Jéssica é filha de camponeses do interior de Goiás. O que não impede que sejam irmanadas no sofrimento psicológico, cada uma em seu contexto. 
 
No debate de Gramado, a atriz Elisa Lucinda observou que o fato de terem feito cenas numa instituição de saúde mental em funcionamento permitiu que ela identificasse o que definiu como “miséria na riqueza” - ou seja, mesmo pessoas nascidas na elite que têm dinheiro e acesso a todos os benefícios já “nascem com seus sonhos sequestrados”, uma vez que não lhes é dado o direito de escolher o papel que irão desempenhar na vida. Tudo já seria predeterminado e imposto, a elas só restando ocupar esse lugar ou sofrer pressões que as levariam também ao desequilíbrio. Elisa também comentou a dificuldade da população pobre de ter acesso a atendimento psicológico. “A gente vive numa sociedade muito borderline”, afirmou. 
 
O produtor Patrick de Jongh, por sua vez, criticou como a figura do psicólogo é apresentada muitas vezes de maneira caricata no cinema, ao contrário deste filme. “Há muito preconceito no Brasil em torno da terapia, como se fosse coisa de ‘gente doida”. O brasileiro procura terapia no bar ou na igreja”, lamentou. 
 
De todo modo, Por que você não chora? constroi várias camadas do universo feminino, a partir do ambiente elitizado mas intolerante de Bárbara, do mundo limitado e preconceituoso onde cresceu Jéssica, e também das possibilidades que essas mulheres encontram no mundo social, acadêmico, judicial (como quando Bárbara tenta reaver a guarda do filho). Por isso, não se trata, meramente, de um filme de “caso psicológico”, embora a situação destas duas personagens tenha sido calcada em pesquisas e seus rumos se inspirem em pessoas reais. Há humanidade infiltrada na composição destas criaturas, capazes também de humor, afeto e empatia. O filme tem uma complexidade capaz de lhe dar relevância.

Neusa Barbosa


Trailer


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