Homem Onça

Ficha técnica


País


Sinopse

Pedro é gerente da estatal Gás do Brasil e acaba de receber um prêmio internacional por um projeto de sustentabilidade. Neste momento, a empresa está em processo de privatização, o que começa a destroçar empregos e romper relacionamentos e planos de futuro.


Nota Cineweb

PéssimoRuimRegularBomÓtimo


Crítica Cineweb

23/08/2021

Homem Onça, de Vinicius Reis, faz a crônica de um país através de dois tempos na vida de um homem, Pedro - interpretado com galhardia por Chico Díaz.
 
Pedro é gerente de projetos ambientais de uma estatal, a Gás do Brasil, no final dos anos 1990, cuja equipe acaba de receber um prêmio internacional por um projeto de sustentabilidade. Mas o troféu chega no momento em que a companhia encara uma reestruturação total, por conta da privatização - o supra-sumo da ideologia neoliberal, que impõe o enxugamento radical de empregos, indiferente à qualidade das trajetórias dos envolvidos.
 
Logo no início, o filme recorre a trechos documentais, de protestos de rua contra a privatização da Vale do Rio Doce, em maio de 1997, deixando clara sua inspiração num dos grandes divisores de águas na história recente do país - e que fez parte da experiência familiar do diretor Vinícius Reis, que a ouviu contar do próprio pai. Mas o filme mostra mais ambição do que enraizar-se no real, construindo sua narrativa em dois tempos paralelos na vida de Pedro e permitindo-se ao menos uma sequência fantástica. Sem contar a referência simbólica que dá nome ao filme, essa fera que espreita, implacavelmente caçada, não raro julgada extinta mas demonstrando uma capacidade extraordinária de resistir. 
 
Há o Pedro que ainda luta por seu emprego e sua equipe, casado com Sonia (Sílvia Buarque), sendo sua casa a própria residência dos pais do diretor. E há também o Pedro de alguns anos depois, morando numa casa na mata, ao lado de outra mulher, Lola (Bianca Byington, premiada como melhor coadjuvante em Gramado 2021). A narrativa evolui alternando estes dois tempos para traçar o perfil não só de Pedro como de um país que luta, não raro, consigo mesmo, e sem perder de vista os relacionamentos pessoais e os afetos.
 
A elaboração técnica do filme, com a montagem e o desenho de som precisos de Waldir Xavier (incluindo-se aí a excelente pesquisa musical, situando as épocas retratadas), a fotografia a quente de João Atala e a direção de arte cuidadosa de Tainá Xavier, contribui para que o filme cresça em muitas direções, oferecendo um painel reflexivo e emocionado de um país que dói no íntimo de todos nós. Pedro é um digno viajante de um passado recente que nos trouxe até o dramático impasse do momento atual, em que mais do que nunca é preciso falar de soberania e discutir os dogmas da suposta eficiência das privatizações, destroçando empregos e dignidades pelo caminho. 

E que elenco afinado e maravilhoso, dando carne a personagens em sintonia fina com pessoas que existem, esta uma qualidade já demonstrada antes pelo diretor em filmes como Praça Saens Peña (2009), ambos os títulos sedimentando uma obra capaz de retratar a classe média urbana com muita propriedade.

Neusa Barbosa


Trailer


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