Duas ou Três Coisas Que eu Sei Dela

Duas ou Três Coisas Que eu Sei Dela

Ficha técnica


País


Sinopse

Juliette é casada e mora nos subúrbios de Paris. O filme a acompanha durante um dia, no qual, depois de deixar a filha pequena na creche, ela vai ao centro da cidade, passeia por lojas e se prostitui, transformando-se também numa mercadoria.


Nota Cineweb

PéssimoRuimRegularBomÓtimo


Crítica Cineweb

16/08/2021

Em 1967, com Duas ou três coisas que sei dela, Jean-Luc Gordard abraçou de vez a causa pós-modernista. A John Wakeman, em um livro de 1988, o cineasta disse que nesse longa “queria incluir tudo: esporte, política, até alimentos. Tudo o que poderia ser colocado num filme”. E é nessa miscelânea de assuntos e formas que o diretor faz sua crítica ao capitalismo tardio e à sociedade de consumo.
 
O filme foi rodado na mesma época que Made in USA, um pela manhã, o outro pela tarde. Aqui, não havia um roteiro. O longa se compõe de improvisações, com um tema que sempre parece interessar a Godard: prostituição. Mas aqui isso serve como uma metáfora para trabalho, relações de classe e poder. Ele já havia feito algo parecido – mas menos extravagante – em sua obra-prima Viver a Vida, de 1962. Neste outro, radicaliza com a forma.
 
As complicações já começam no título. Quem é o “eu”, sujeito do verbo ser? Poderia ser Godard, obviamente. Ele próprio sussurra, às vezes de maneira quase inaudível, elucubrações e comentários ao longo de todo o filme. A voz baixa indica uma proximidade ao espectador, como procurando seduzi-lo pelo discurso. Mas o parafuso dá outra volta quando se pergunta quem é “ela” sobre a qual esse narrador sabe duas ou três coisas. As possibilidades são vastas, quase infinitas.
 
Há, pelo menos, três possibilidades, explica-se no começo do filme. A primeira é Juliette Janson, personagem ficcional que existe apenas dentro do longa, e é interpretada por Marina Vlady, sobre quem também sabemos pouco. Não se devem confundir as duas mulheres, somos alertados. A outra possibilidade é a própria cidade de Paris, consumida cada vez mais – objeto de desejo, fetiche turístico capitalista, devorada pela sociedade de consumo e centro do projeto modernizante de Charles De Gaulle. Como Juliette, a cidade se prostituiu – ou foi prostituída.
 
Não dá para se esperar nada minimamente convencional num filme no qual Godard mira na pós-modernidade e no pós-modernismo e se entrega ao momento histórico e à estética. Não há uma narrativa propriamente dita, mas há personagens e, nesse sentido, o movimento entre documentário e ficção tem suas peculiaridades. O ficcional, ao contrário do outro gênero, é autocontido. Tudo que está dentro dele é, e deve ser, suficiente. Enquanto o outro irá apresentar lacunas. Nesse sentido, esse é um filme elíptico e elusivo.
 
Acompanhamos um dia na vida dessa protagonista, que vive com um marido e um par de filhos num apartamento no subúrbio. Ela deixa a filha na creche, vai ao centro de Paris, onde passeia por lojas, encontra clientes. A vida cotidiana é estilhaçada em pequenos fragmentos - e uma das características da pós-modernidade é nossa incapacidade de fazer conexões, de ver uma totalidade. Temos ciência de pedaços, dissociados do todo. Podemos saber de duas ou três coisas, mas nunca de tudo. Enquanto isso, a tela é inundada por propagandas, slogans, outdoors gigantes. É uma obsessão de Godard estampar palavras em seus filmes, e aqui isso é potencializado em sua crítica à sociedade de consumo conjugada à do espetáculo.
 
O uso das cores, na fotografia de Raoul Coutard, é impressionante, pois tudo é chapado em tons fortes – em especial vermelho, azul e branco, não por acaso, as cores das bandeiras da França e dos EUA. Não há nuances ou cores pálidas. Os objetos, assim como o figurino, se destacam em cores sólidas, como uma propaganda que captura o olhar e domina o quadro.
 
O crítico cultural e teórico norte-americano Fredric Jameson escreveu, num ensaio seminal dos anos de 1980, que uma das características do presente – válida naquela época e que persiste até hoje – é a incapacidade de historicizar. Passado, presente e futuro se fundem num eterno contínuo, no qual a ordem temporal se dissipa. Em Duas ou três coisas que eu sei dela, Godard destrói a linha narrativa. As partes compõem o todo, mas esse todo não dá conta de tudo. A organização das cenas poderia ser, aleatória - se não for mesmo -, como a vida de Juliette em busca de una narrativa que a organize, tal como a de todo mundo. 

Alysson Oliveira


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