Nunca Mais Nevará

Ficha técnica


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Sinopse

Zhenia viva em Pripyat, em 1986, quando houve a tragédia de Chernobyl. Anos depois, ele vive como um imigrante na Polônia, onde trabalha como massagista. Dotado de poderes especiais, ele é capaz de transformar a vida de seus clientes.


Nota Cineweb

PéssimoRuimRegularBomÓtimo


Crítica Cineweb

16/08/2021

Zhenia (Alec Utgoff) tem o que se chamaria de superpoderes, mas não é um super-herói. Ou é? Tudo depende do referencial com o qual se define a categoria. Sua super-missão seria trazer a cura emocional para as pessoas, e ele consegue isso por meio da massagem. A cineasta polonesa Malgorzata Szumowska, aqui dirigindo com seu parceiro criativo, o diretor de fotografia Michal Englert, cria em Nunca mais nevará uma fábula melancólica e de tons pálidos sobre feridas históricos e seus ecos ao longo do tempo. O filme estreou no Festival de Veneza de 2020 e foi o escolhido pela Polônia como seu representante no Oscar.
 
Zhenia é um ucraniano que imigrou para a Polônia, onde trabalha fazendo massagens em pessoas ricas de um condomínio de luxo. Ele é calado, mas sua figura transmite conforto e segurança, o que esconde seu passado doloroso e sua infância em Chernobyl – eis aí uma pista para seus “superpoderes". Quando ele tinha sete anos, a usina nuclear explodiu, causando destruição e danos a várias pessoas de gerações que ainda viriam. Sua mãe não sobreviveu à radiação.
 
Szumowska e Englert, que também assinam o roteiro, não têm pressa em revelar a narrativa de Nunca mais nevará. O personagem é construído aos poucos, mostrando-nos em flashbacks sua infância trágica. Com os clientes e as clientes, ele pouco conversa, apenas o básico, mas, ainda assim, estabelece laços que lhe permitem entrar em suas vidas, desvendar suas dores. É uma classe alta, fina e esbanjadora, que se contrapõe a uma Polônia em recessão econômica – que nunca é mostrada.
 
A dupla do roteiro e direção vale-se de um tom de sátira, mostrando veladamente as mazelas de seu país. O que se vê na tela é um estrato social ensimesmado, preocupado consigo mesmo, fechado em seu condomínio de casas simétricas. A contrapartida está no quarto gélido e desprovido de qualquer luxo onde vive Zhenia. Num filme em que um dos diretores é um diretor de fotografia, não é de se espantar seu esmero visual. A trama se situa nos dias em torno do Natal, com um inverno rigoroso, mas sem neve – a paleta acinzentada e pálida ressalta o estado emocional daquelas pessoas, em contraposição aos flashbacks em tons dourados da infância do protagonista.
 
Utgoff (conhecido como o cientista russo da série Stranger Things) é um ucraniano que nasceu poucos dias antes do acidente de Chernobyl e vive em Londres, com sua família, desde pequeno. Aqui sua performance é impressionante, com sua capacidade de transmitir tanto apenas com o olhar. São olhos capazes de penetrar nas almas daqueles ricos e ricas infelizes, transformando-os com uma espécie de hipnose que lhe permite descobrir mais sobre suas psiques.
 
Szumowska e Englert ecoam filmes como Teorema, de Pasolini, e Stalker, de Tarkovski. Do primeiro, tomam emprestado o estranho que chega e transforma a todos, e do outro, o sentido de um apocalipse em curso. É curioso como o diretor russo (e os irmãos Arkadi e Boris Strugatski, autores da obra original) foi capaz de “prever” algo como Chernobyl, inclusive com um lugar chamado A Zona, como ficou conhecida também a área do acidente. No filme polonês, a dupla parece ir direto ao fim de Stalker, com a menina com telecinese, e, a partir daí, construir um filme sobre como uma criança afetada pela radiação cresceu e utilizou seus “poderes”.
 
Apesar de toda a melancolia que atravessa Nunca mais nevará, o filme consegue encontrar humor e otimismo em seu apocalipse da classe abastada. Zhenia é o catalisador das transformações, que se materializam na neve. São construções de imagens como essa que dão força ao filme, o qual encontra uma sintonia acertada entre forma e conteúdo.

Alysson Oliveira


Trailer


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