Narciso Negro

Narciso Negro

Ficha técnica


País


Sinopse

Um grupo de freiras tenta estabelecer um convento no Himalaia, mas o isolamento e o choque cultural fazem, aos poucos, cada uma delas perder a razão.


Nota Cineweb

PéssimoRuimRegularBomÓtimo


Crítica Cineweb

03/08/2021

O ano de 1947 marca a independência da Índia e também o lançamento de Narciso Negro, da dupla Michael Powell e Emeric Pressburger, baseado num romance de 1939, de Rumer Godden. De certa forma, o filme não deixa de ser um réquiem para o projeto colonial britânico, que se esmaecia na época da produção do longa – filmado inteiramente, diga-se, em estúdio na Inglaterra e com elenco majoritariamente ocidental, até para personagens indianos, como é o caso da jovem rebelde vivida por Jean Simmons, cujo rosto é levemente bronzeado com uma maquiagem.
 
No filme, cujo cenário é uma região isolada do Himalaia, próxima a Darjeeling, as protagonistas são um grupo de freiras que se mudam para uma antiga construção conhecida como O Castelo – embora de castelo não tenha nada. Elas irão lecionar para as crianças locais, com a ajuda de uma criança-tradutora. Quem cuida de tudo ali é a madre superiora Clodagh (Deborah Kerr), junto a outras três religiosas, sendo que uma quarta passa o tempo todo em seu quarto, pois está doente. Trata-se da irmã Ruth (Kathleen Byron), cujo estado emocional dará margem a boa parte dos psicologismos baratos que já se usaram para interpretar o filme.
 
Uma versão pop de Freud dá conta da repressão do desejo sexual das freiras, isoladas numa região insólita e cercadas por pessoas com a sexualidade à flor da pele – materializada especialmente na figura do inglês Dean (David Farrar), cujos poucos trajes são alvo de olhares lascivos e doentios da adoentada irmã Ruth. É muito fácil cair na leitura de interpretar as personagens femininas como histéricas, destituindo-as e ao filme de uma interpretação social – “são apenas mulheres com o desejo reprimido”. Clodagh, por exemplo, é um mistério – embora alguns flashbacks a retratem como um espírito livre e noiva de um rapaz na juventude. Ela também não era de uma família pobre.
 
Uma das referências pictóricas da fotografia, assinada por Jack Cardiff, vem dos espaços interiores de Vermeer, que materializam o claustro e os sentimentos reprimidos em tons escuros de marrom, contraponto ao azul, verde e branco do exterior e da natureza. O “castelo” no alto de uma colina impõe austeridade e confere algum tipo de poder, mesmo que involuntariamente, às religiosas.
 
A representação dos nativos, por sua vez, anda sobre um fio tênue entre a complexidade e o clichê, pendendo, em parte do tempo, para o segundo – especialmente com a “brown face” de Simmons.  Há também o jovem general (Sabu) que procura a escola das religiosas porque quer aprender línguas, matemática etc. Ele é mais velho do que os alunos regulares, mas acaba aceito, e há um discreto romance entre ele e a garota rebelde. Pode o subalterno falar em Narciso Negro? Pode, mas desde que seja num inglês quase impecável.
 
Mas a dupla Powel & Pressburger tem a melhor das intenções, e esse é um filme sobre o fim de uma ideia, é a despedida melancólica do projeto de colonização inglesa para a Índia. A cena final, com a partida das religiosas e a chegada das monções, trazendo uma chuva que a tudo lava, simbolicamente pode representar a vitória do povo indiano – nem que seja temporária.
 
A bela embalagem em technicolor e as chuvas parecem uma celebração à resiliência dos indianos, que surgem como uma força da natureza diante da opressão imposta pelo ocidente – especialmente aquela simbolizada na religião. O que Narciso Negro tem a dizer sobre a região do Himalaia e a Índia talvez não seja muito, especialmente porque foi filmado inteiramente em estúdio, com paisagens pintadas. Mas há algo inerente à representação do colonizado cujos vícios o olhar repleto de boas intenções dos diretores não supera. Ainda assim, apesar de todos os equívocos, é um olhar de tirar o fôlego.

Alysson Oliveira


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