Caros Camaradas!:Trabalhadores em Luta

Ficha técnica

  • Nome: Caros Camaradas!:Trabalhadores em Luta
  • Nome Original: Dorogie tovarishchi / Dear Comrades
  • Cor filmagem: Preto e Branco
  • Origem: Rússia
  • Ano de produção: 2019
  • Gênero: Drama
  • Duração: 121 min
  • Classificação: 14 anos
  • Direção: Andrei Konchalovsky
  • Elenco: Yuliya Vysotskaya, Vladislav Komarov

País


Sinopse

Pressionados pela alta dos alimentos e a redução de seus salários, os trabalhadores de uma fábrica de locomotivas em Novocherkarssk, sudoeste da URSS, entram e greve e ocupam as ruas da cidade, em 1962. O governo decide pela repressão e as consequências são terríveis.


Nota Cineweb

PéssimoRuimRegularBomÓtimo


Crítica Cineweb

21/07/2021

Ambientando sua história em 1962, o veterano diretor russo Andrei Konchalovsky adota, no drama histórico Caros Camaradas!: Trabalhadores em Luta, uma estética da época, inclusive no nostálgico preto-e-branco em que o envolve - a exemplo de seu filme anterior, Paraíso (2017). Ambos os filmes, premiados no Festival de Veneza, o mais recente com o Prêmio Especial do Júri em 2020.
 
Se o preto-e-branco remete a um velho álbum de retratos, não é menos verdade que este grita na tela a denúncia que quer desenterrar - o massacre de cerca de 80 trabalhadores na cidade de Novocherkassk, sudoeste da URSS, que haviam ousado rebelar-se com uma greve e a ocupação da fábrica de locomotivas elétricas.
 
Eram os tempos do líder Nikita Krushev e da tentativa de superar o passado stalinista, depois de denunciados seus expurgos e massacres. No entanto, crescia a tensão popular, porque os preços dos alimentos subiam vertiginosamente, somando-se à escassez de alguns gêneros. Só eram poupados das privações os privilegiados membros do PC, como o primeiro-secretário da cidade, Loginov (Vladislav Komarov). Para ele e seus protegidos, os armazéns reservavam iguarias como salames, licores, doces e cigarros, além de serem dispensados das filas. 
 
Personagem central e mais complexa desta história, roteirizada pelo diretor e sua habitual parceira, Elena Kiseleva, Lyuda (Yulia Vysotskaya), funcionária do Comitê Comunista, encarna ideias e sentimentos contraditórios. Mãe solteira, defende o conforto de sua pequena família, formada pelo velho pai (Sergei Erlish) e a filha de 18 anos, Svetka (Yulia Burova), mas também a obediência fiel aos preceitos do partido, além de manter um caso com Loginov. Tendo sobrevivido à II Guerra, ela forjou uma adesão apaixonada a Stálin, de quem mantém um retrato na própria sala de casa. Desconfia, por isso, do reformismo de Krushev, apegando-se à crença de que a manutenção da rigidez stalinista traria, no devido tempo, as prometidas benesses máximas do comunismo. 
 
Lyuda vê-se num dilema dilacerante quando estoura a greve na fábrica, onde trabalha sua filha, que se envolve no movimento - deflagrado quando o gestor abaixou os salários, justamente no momento da carestia. A revolta popular provoca o pânico nos dirigentes do partido, que fogem enquanto a cidade é ocupada por tropas, restringindo a entrada e saída não só das pessoas como de toda e qualquer notícia. 
 
Acossados pelos trabalhadores em revolta, que ocupam as ruas com retratos de Lênin e bandeiras, num sinal de que desejam ver a Revolução de 1917 voltar às suas origens, os dirigentes forçados à fuga, escoltados por militares, escondem-se em seus bunkers. Nessas febris reuniões secretas, forja-se a decisão da repressão violenta, driblando a Constituição, que proíbe que o Exército atire contra seu próprio povo. Altos burocratas mandam distribuir munição aos soldados, enquanto snipers da KGB ocupam o teto dos prédios.
 
A reconstituição destas batalhas é um dos aspectos mais impressionantes do filme, que traduz sua tensão no contraste entre dois tipos de ambientes. De um lado, as salas fechadas em que se reúnem nervosamente os burocratas e os chefes militares, cujas paredes parecem comprimi-los, tornando-os menores. De outro, os enfrentamentos sangrentos nas ruas, em que os trabalhadores são baleados no meio de suas marchas, tingindo o asfalto de um mar de sangue que nem toda a água do mundo consegue lavar. Por isso, do processo de fabricação de uma nova verdade fará parte uma nova camada de asfalto e a construção de um palanque, onde será colocada uma orquestra, comandando um bizarro baile ao ar livre.
 
Colhida pelo turbilhão, Lyuda se vê confrontada em suas mais arraigadas convicções pelo desaparecimento da filha.  A interpretação firme de Yulia Vysotskaya traduz perfeitamente as contradições desta fiel funcionária do Partido e mãe desesperada, percorrendo o hospital, o necrotério, as ruas, em busca de qualquer sinal de Svetka, o que também a coloca na mira da KGB. Fosse menos precisa a chave de sua atuação, poderia ter sido perdida a humanidade da personagem, tornando-a uma vilã banal. Da maneira como ela a encarna, e o filme lhe fornece contexto, Lyuda torna-se muito mais o símbolo dessas pequenas pessoas comuns, colhidas no meio das marés da História e recusando abrir mão de suas crenças, pelo temor que as ruínas de seu mundo terminem de desabar.

Neusa Barbosa


Trailer


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