Irmãos à italiana

Irmãos à italiana

Ficha técnica


País


Sinopse

Valerio é o filho mais velho de Alfonso, subcomandante da polícia romana nos anos 1970. Sua família sofre um trauma quando o pai é atingido a tiros num atentado dos grupos armadas da época. Os conflitos de Valerio encontram apoio em Christian, um novo amigo que ele conhece nas ruas.


Nota Cineweb

PéssimoRuimRegularBomÓtimo


Crítica Cineweb

19/07/2021

Drama que concorreu ao Leão de Ouro em Veneza 2020 e lá conquistou o prêmio de melhor ator para Pierfrancesco Favino, Irmãos à Italiana, de Claudio Noce, se apóia num registro que desafia o realismo, ao manter uma espécie de névoa sobre uma vida recordada por um menino, Valerio (Mattia Garacci).
 
Há uma assumida sugestão autobiográfica no enredo, embora o diretor tenha se permitido inúmeros desvios de sua própria trajetória pessoal. De todo modo, Noce é alguém que viveu sua infância na Itália dos anos 1970, sacudida pela ação de diversos grupos terroristas e sofreu, quando pequeno, o trauma de ter seu pai, subcomandante da polícia romana, ferido num atentado - o mesmo incidente central do filme, roteirizado pelo diretor e por Enrico Audenino.
 
Valerio tem 10 anos e é o filho mais velho de Alfonso (Pierfrancesco Favino) e Gina (Barbara Ronchi). Chefe de polícia, o pai se ausenta frequentemente de casa, onde Valerio fica entregue ao cuidado da mãe, isolando-se dela e da irmã menor (Lea Favino) para criar seu próprio mundo de fantasia - que inclui um esconderijo e um amigo imaginário invisível, com quem ele conversa animadamente.
 
A espinha dorsal da história é a formação da masculinidade e, neste sentido, é essencial a ligação de Valerio com este pai distante e idealizado, cujos escassos momentos compartilhados com a família são extremamente valorizados pelo menino. E suas ausências, por outro lado, são as lacunas deixadas à imaginação que o menino fica tentando preencher no seu refúgio. 
 
A inocência de Valerio é abalada no dia em que o pai sofre um atentado a tiros na porta de seu apartamento, que é testemunhado da varanda pelo filho. A memória do fato é distorcida não só pelas emoções com que o menino não consegue lidar quanto pela tentativa dos pais de ocultar-lhe a verdade. 
 
Ele encontra conforto num novo conhecido, Christian (Francesco Gheghi), um garoto das ruas, um pouco mais velho, disposto a ensinar-lhe alguns segredos e conduzi-lo em novas aventuras.
 
A maneira como o filme lida com a figura de Christian, oscilando entre a aparência de um personagem imaginário e real, é o grande diferencial da história  - e também seu ponto frágil. Christian funciona como um fantasma, um ser mágico e também como um quase alterego, um irmão mais velho capaz de levar Valerio mais longe e compartilhar de algumas dores do crescimento. A dubiedade como ele entra num ambiente em que coexistem os adultos pode permitir diversas interpretações mas, certamente, tem todo o potencial para confundir os espectadores num mau sentido. Noce e seu corroteirista poderiam ter lidado com esta ambiguidade de maneira mais elaborada e sutil, ainda mais levando-se em conta que um tema central é também a paternidade, cujas carências são compartilhadas pelos dois garotos.  
 
De todo modo, o filme tem seus méritos ao resgatar um período turbulento da história da Itália a partir de um viés intimista, traçando um retrato complexo de uma família naqueles dias - a passagem na Calábria introduz, inclusive, matiza o retrato deste clã. 
 
A fotografia de Michele D”Attanasio pontua os diversos momentos deste folhear de um álbum de recordações que constitui a história. As cenas internas do apartamento da infância de Valerio são banhadas de uma luz dourada que emoldura este passado até certo ponto idealizado, antes do atentado. A luz natural do trecho da Calábria abre o foco para grandes espaços naturais onde a corporalidade de Valerio começa a libertar-se de suas limitações de menino de apartamento de grande cidade. A montagem de Giogiò Franchini, por sua vez, dá agilidade às passagens do turbilhão das memórias do protagonista, atravancadas apenas por algumas indecisões do diretor no tom de seu filme.

Neusa Barbosa


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