Maurice

Maurice

Ficha técnica


País


Sinopse

Colegas na universidade de Cambridge em 1909, Maurice e Clive tornam-se melhores amigos. Mas a convivência os leva a descobrir uma paixão, que tem que ser cuidadosamente escondida, numa Inglaterra que punia com a prisão a homossexualidade.


Nota Cineweb

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Crítica Cineweb

06/07/2021

Conhecido pela elegância com que traça seus retratos de época, aqui mais uma vez o período eduardiano na Inglaterra, o começo do século XX, o diretor James Ivory conjuga em Maurice algumas de suas melhores qualidades. Adapta com primor o romance de J.M.Forster - um de seus autores favoritos -, cria atmosferas e extrai crítica social de um denso retrato de época em que transparece a imensa repressão sexual da homossexualidade.
 
James Wilby e Hugh Grant, seus dois protagonistas, dividiram com justiça o prêmio de melhor ator no Festival de Veneza 1987, do qual Ivory sairia também consagrado com um Leão de Prata pela direção e o compositor Richard Robbins com o prêmio de melhor trilha musical - esta um elemento usado com a devida contenção para sustentar os climas de uma história que começa na seleta universidade de Cambridge, em 1909. 
 
Ali se conhecem os estudantes Maurice Hall (Wilby) e Clive Durnham (Grant), dois filhos da aristocracia britânica que rapidamente se tornam melhores amigos e muito mais. Uma paixão jovem e intensa brota entre os dois, cuidadosamente disfarçada numa Inglaterra em que o relacionamento entre dois homens era punido com a prisão e a desgraça pública eterna - ainda está na memória a tragédia do escritor Oscar Wilde, rapidamente aludida numa conversa em que se comenta a queda em desgraça de um dos personagens da história. 
 
Ambos os protagonistas são cuidadosamente desenhados ao longo das 2h20 do filme, que nunca se sente como uma duração excessiva porque as imagens sucedem-se preciosamente na montagem precisa de Katherine Wenning, numa sequência de acontecimentos que se mostram indispensáveis. Eventos mundanos nunca estão na tela apenas para enfeite e sim para ilustrar o modo de funcionamento desta sociedade movida por aparências que devem ser rigorosamente mantidas, se é que se quer manter seu lugar dentro dela.
 
Ao longo dos anos, o relacionamento entre Clive e Maurice sofrerá, como se espera, seus tropeços, não só pela repressão social e o medo do escândalo, mas pelas próprias diferenças de posicionamento de cada um deles diante da vida. Embora o sentimento que une os dois seja incontornável, Clive é muito mais suscetível às conveniências de uma alta posição e da perspectiva de uma carreira política. Maurice, por sua vez, é um temperamento mais sensível e apaixonado, expondo-se às vezes em comportamentos impulsivos. Estes dois eixos movimentam a história, que corre como um rio, cheio de corredeiras, correntes, cachoeiras, acidentes que não conduzem à conciliação. 
 
O resultado é um filme de uma beleza e solidez extraordinárias, dedicando todo o tempo que a ação precisa e cultivando personagens secundários com a mesma seriedade em torno dos protagonistas. Assim, extrai-se um intenso sabor da composição das respectivas famílias de Clive e Maurice, especialmente em figuras femininas de grande expressão - como as mães de ambos, a sra. Hall (Billie Whitelaw) e a sra. Durnham (Judy Parfitt). Além disso, há os empregados da casa Durnham, Simcox (Patrick Godfrey) e Scudder (Rupert Graves), e a figura inusitada de um hipnotizador (Ben Kingsley). 
 
Maurice retrata uma Inglaterra aprisionada em convenções e rigidez social, prestes a sofrer a convulsão da I Guerra Mundial. E o faz sem perder de vista o furor dos sentimentos mais íntimos, sufocados nos subterrâneos. Não é tarefa simples para nenhum diretor, mas Ivory mostrou-se mais uma vez capaz de preencher a fatura.

Neusa Barbosa


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