Amonite

Amonite

Ficha técnica


País


Sinopse

Em 1840, Mary Anning vive em Lyme Regis, uma pequena cidade litorânea, com sua mãe e conquista reputação como paleontóloga amadora. Ela recebe o encargo de cuidar de uma jovem deprimida, Charlotte, que o marido entrega à sua guarda. Entre as duas, nasce aos poucos uma paixão.


Nota Cineweb

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Crítica Cineweb

28/06/2021

Não fosse a discriminação de gênero e classe da Inglaterra do século XIX, Mary Anning (Kate Winslet) teria maior reconhecimento por seu trabalho como paleontóloga. Precoce, ela descobriu ainda criança um esqueleto de icitiossauro, que, anos depois, integra o acervo do tradicional Museu Britânico. Isso não mudou a vida de Mary, que continua pobre, morando na localidade remota e litorânea de Lyme Regis, em Dorset, tirando seu sustento e de sua mãe, Molly (Gemma Jones), das peças que ela recolhe desta praia bravia, pedregosa e sempre batida pelo vento.
 
Sua discreta fama chega a Londres, onde suas descobertas são discutidas em círculos especializados como a Sociedade Geológica - numa época em que as sociedades científicas não admitiam a frequência feminina. Além disso, os fósseis que ela recolhe, comprados por colecionadores, quase sempre têm seus créditos recobertos por etiquetas que a omitem. De Londres chega o rico casal Murchison, Roderick (James McArdle) e Charlotte (Saoirse Ronan), trazendo um solavanco à vida opaca de Mary.
 
A fotografia do francês Stéphane Fontaine (de O Profeta e Jackie) sustenta a dualidade entre contenção e explosão que dá o tom de uma narrativa que se apóia numa infinidade de detalhes, expostos em closes de rostos, olhos, mãos, traduzindo em imagens precisas os diálogos não enunciados verbalmente. Essa economia de palavras é um dado essencial para escancarar a rigidez dos códigos sociais e morais de uma história ambientada em 1840.
 
Escrito e dirigido pelo britânico Francis Lee, o filme elabora cuidadosamente um discurso sobre a marginalização das mulheres na sociedade da época, em que apenas as que eram sozinhas, como a solteira Mary e a mãe viúva, tinham autonomia para governar-se, mesmo assim, sendo desconsideradas. Moças casadas, como Charlotte, eram conduzidas pelo marido - do que se dá sinal eloquente no fato de que, na primeira meia hora de filme, a voz dela ainda não tenha sido ouvida. Até no restaurante, o marido escolhe por ela o que irá comer. 
 
A depressão de Charlotte é o pretexto para que Roderick, ele mesmo um diletante colecionador de rochas e fósseis, praticamente obrigue Mary a cuidar dela durante o tempo em que ele estará viajando com seus amigos - o que Mary só aceita por absoluta necessidade econômica.
 
A sutileza sólida do diretor expressa-se também na maneira como constrói o relacionamento entre Mary e Charlotte, duas mulheres de idades, temperamentos e classes diferentes obrigadas à convivência uma com a outra. Elas se encaram num silêncio raivoso a princípio. Sua primeira conversa é uma briga. Mas Charlotte adoece e isso rompe a distância física entre as duas, com Mary cuidando dela como de uma filha. Há uma grande delicadeza no retrato deste envolvimento, inclusive nas cenas eróticas, filmadas com uma mistura de intensidade e beleza na medida, com uma câmera que é intimista mas nunca intrusiva ou voyeur. 
 
Personagens secundários entram na história com funções bem específicas para dizer mais sobre Mary. Caso de Elizabeth (Fiona Shaw), uma fabricante de pomadas com quem fica óbvio que Mary manteve algum dia uma ligação amorosa. E também o médico, dr. Lieberson (Alex Secareanu), um estrangeiro que corteja Mary e fornece o estopim de uma cena de ciúme entre as duas. A participação destes personagens fornece contexto e sabor, tirando a história de um risco de claustrofobia no relacionamento central, adicionando matizes. 
 
Em seu segundo longa, o diretor Francis Lee mostra uma assinatura dramática e visual, aquela mão de diretor que conjuga intimismo e contexto social de forma equilibrada, criando um filme cativante, mas que vale como ficção. Embora sejam reais a figura e o trabalho científico de Mary Anning, o enredo aqui foi livremente desenvolvido por Francis Lee, incomodando alguns espíritos conservadores pelo aspecto sexual da história.
 
O título, Amonite, remete aos fósseis dos moluscos primitivos que Mary escava cuidadosamente das rochas das praias, constituindo uma metáfora da própria repressão amorosa da personagem, que só a custo a paixão consegue quebrar. Kate Winslet, aliás, entrega uma interpretação primorosa, repleta de nuances. Ao seu lado, Saoirse Ronan não faz feio, mostrando-se uma das mais consolidadas jovens atrizes da atualidade.

Neusa Barbosa


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