Retorno a Howards End

Retorno a Howards End

Ficha técnica


País


Sinopse

Pouco antes de sua morte, Ruth Wilcox se afeiçoa a uma nova amiga, Margaret Schlegel, e acaba deixando-lhe uma pequena propriedade como herança. O viúvo contrariado esconde a verdade, mas isso acaba aproximando-o ainda mais da mulher que deveria ser a herdeira de Howards End.


Nota Cineweb

PéssimoRuimRegularBomÓtimo


Crítica Cineweb

25/06/2021

Quase três décadas depois de seu lançamento original, no Festival de Cannes de 1992 (no qual recebeu um Prêmio do 45o aniversário do festival), Retorno a Howards End permanece tão poderoso e belo quanto naquela época. É um filme com o qual o tempo foi generoso, evidenciando suas qualidades, sem o envelhecer em um segundo – afinal, a sociedade de classes inglesa não passou por nenhuma grande transformação nesse tempo todo, aliás, nem desde quando o romance original de E. M. Forster foi publicado, em 1910.
 
Howards End, mais do que o título do filme, é a pequena propriedade que se torna um dos cenários da narrativa, e o centro que a impulsiona, numa disputa tácita. Ruth Wilcox (Vanessa Redgrave) é uma aristocrata rica a quem o local pertence há muitas gerações. Seu marido, Henry Wilcox (Anthony Hopkins), é bastante rico, e aquele pequeno local, longe do campo e longe da cidade, pouco lhe interessa. Ainda assim, quando a mulher morre, ainda no começo do filme, e deixa Howards End para uma virtual desconhecida, ele e seus filhos e filha resolvem que a mulher não deve nem ficar sabendo da herança.
 
A herdeira é Margaret Schlegel (Emma Thompson, ganhadora do Oscar de atriz por esse trabalho), uma mulher independente e culta que mora em Londres, junto com a irmã, Helen (Helena Bonham Carter), e o irmão Tibby (Adrian Ross Magenty). As duas fazem parte da elite intelectual do momento, reunindo amigos e amigas igualmente pensantes para debates e discussões durante o chá da tarde. O acaso leva ao apartamento delas Leonard Bast (Samuel West), pobre alma sem dinheiro mas que pensa em se elevar culturalmente.
 
O retrato mordaz da Inglaterra eduardiana de Forster encontrou no produtor Ismail Merchant, no diretor James Ivory e na roteirista Ruth Prawer Jhabvala as sensibilidades mais acentuadas para traduzir o romance em cinema. Retorno a Howards End tem o mesmo esmero dos filmes do trio, mas nada disso é gratuito ou puro exibicionismo. A evocação de um período aqui não remete a uma Inglaterra do passado, que não existe mais, mas a algo pulsante e vivo, cujas tensões desaguam no presente dos anos de 1990 e no de hoje.
 
A epígrafe do romance, “apenas conecte”, é uma senha para sua compreensão ao negociar as dinâmicas entre o “old money” dos Wilcox e a cultura elevada das Schlegel. No meio dessa disputa, está Bast, sujeito sem dinheiro ou cultura, que se torna protegido de Helen – cujo bom coração liberal (no sentido cultural, não econômico) sempre se acha na obrigação de abraçar causas sociais, mas, no fundo, mais causa estragos do que ajuda. Ele não precisa apenas de diversão e arte, mas também quer comida. A companheira dele, Jacky (Nicola Duffett), cujo passado está, inesperadamente, ligado a Henry, é outra vítima das elites. O destino de Bast, aliás, é bastante irônico, dado seu apreço pela alta cultura e desejo de pertencer ao clubinho legado por ela.
 
O longa ainda ganhou Oscar de Roteiro Adaptado e Direção de Arte – além de melhor filme, direção e fotografia –, e está longe de ser um testamento ou uma evocação do passado. Retorno a Howards End pulsa com energia ao olhar para outrora mas também ao pensar o presente. Investiga uma aliança de classes, entre os donos do dinheiro e os donos do intelecto, e, como sempre, deixando os pobres de fora. É fácil, até hoje em dia, encontrar, não apenas na Inglaterra, Wilcoxes, Schlegels e Basts. Os papéis de classe são tão enraizados que nem duas grandes guerras foram capazes de os superar. 

Alysson Oliveira


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