Boccaccio 70

Boccaccio 70

Ficha técnica


País


Sinopse

"Renzo e Luciana", de Mario Monicelli, acompanha a saga de um jovem casal de trabalhadores que têm de manter oculto seu casamento por uma restrição contratual do emprego dela. "As tentações do dr. Antonio", de Federico Fellini, segue o moralista Antonio Mazzuolo, que luta para arrancar de uma praça o cartaz de propaganda com uma mulher sensual. "O Trabalho", de Luchino Visconti, retrata a crise de um casal de condes, unidos por conveniências. "A Rifa", de Vittorio De Sica, conta a história de Zoe, que usa seus dotes para levantar dinheiro e ajudar seus patrões.


Nota Cineweb

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Crítica Cineweb

08/06/2021

Filmes coletivos, como Boccaccio 70, eram comuns na década de 1960. Reunindo o talento de quatro dos maiores diretores da Itália - Mario Monicelli, Federico Fellini, Luchino Visconti e Vittorio De Sica - e partindo da inspiração no escritor medieval Giovanni Boccacio, a produção reúne quatro histórias independentes que são filmetes em si. 
 
Na época do lançamento nos cinemas (1962), o episódio inicial, Renzo e Luciana, de Monicelli, acabou sendo cortado para reduzir a duração - o que causou compreensíveis protestos do diretor mas isso acabou sendo resolvido nos lançamentos futuros, em dvd e streaming. Trata-se, de fato, de uma crônica operária, tingida de humor e melancolia, em torno de um jovem casal, Luciana (Marisa Solinas), escriturária, e Renzo (Germano Gilioli), entregador de uma grande empresa. Devido à esdrúxula proibição contratual de que a moça se case, evidentemente pelo risco de engravidar, os dois casam escondido, apenas na igreja, e moram com a família dela. O romance entre os dois é, a todo momento, comprometido pela total impossibilidade de intimidade neste contexto, mas o tom de Monicelli é mais para o cômico do que para o trágico.
 
A situação finalmente se resolve, apenas para colocar o casal em outra impossibilidade de convivência, com Renzo trabalhando de guarda-noturno, ela em outro emprego de dia. O trabalho engole sua juventude e o tempo livre - aos trabalhadores não é concedido o direito de divertir-se. 
 
São especialmente bem-construídas as sequências que mostram a inserção coletiva deste casal nos contextos de uma fábrica, uma piscina pública e um cinema popular - onde os dois são forçados a ficar em pé, nos corredores. A classe operária, para Monicelli, nunca vai ao paraíso, só fica espiando na coxia.
 
O segundo episódio, e o mais famoso, assinado por Fellini, é o delicioso As Tentações do Dr. Antonio, em que Peppino De Filippo interpreta o protagonista, Antonio Mazzuolo, um moralista empedernido. Sua vida é infernizada pela colocação de um imenso cartaz de propaganda de leite, em que a voluptuosa Anita Ekberg é a modelo. Acostumado a ver o obsceno em tudo, Antonio move céus e terras para retirar o cartaz da praça diante de sua casa. Mas sua obsessão vai mais longe e ele começa a ver a musa em todo lugar, até o grande delírio de uma noite, em que ele desce à rua e se vê perseguido por uma versão gigantesca e em carne e osso da sensual Anita. É um grande momento do cinema de Fellini, pouco depois da consagração de A Doce Vida (1960) e tomando de empréstimo deste a musa Anitona, aqui, a mais pura tradução da pulsão do desejo.
 
O terceiro episódio, O Trabalho, de Luchino Visconti, é sem dúvida o mais cáustico. Com roteiro assinado por Visconti e sua habitual colaboradora, Suso Cecchi D'Amico, desenrola-se o duelo de um casal de condes, Ottavio (Tomas Milian) e Pupe (Romy Schneider). Fruto de um casamento de interesses, entre o título dele e a fortuna dela, a união é posta à prova com um grosso escândalo, envolvendo o conde, muito dinheiro e prostitutas. É quando Pupe, desafiada pelo pai a trabalhar, faz uma interpretação provocativa do desafio. Não deixa de ser irônico pensar o quanto o próprio Visconti pode ter colocado alguns detalhes autobiográficos neste retrato de um casamento unindo dois tipos de interesse, ele que era filho de um nobre arruinado e da herdeira de um império farmacêutico. 
 
O segmento final, A Rifa, de Vittorio De Sica, com roteiro de Cesare Zavattini, envereda por um tipo de humor mais direto, que não deixa de correr riscos, por afrontar também alguns pruridos moralistas. A protagonista é Zoe (Sophia Loren), que trabalha num pequeno estande de tiro ao balão e exerce uma atividade paralela e clandestina para ajudar seus patrões, endividados com impostos. Aproveitando seus dotes, a moça participa de uma rifa com preços superfaturados, que dão ao vencedor o direito de uma noite com ela. 
 
Para quem possa ressentir-se de um certo tom machista, num filme dos anos 1960, é importante não perder de vista a acidez com que o experiente De Sica trata deste assunto. O lugar da história, Lugo, tem um grande mercado de animais e não escapa ao diretor que os vários homens do local, quando vêm ver como é Zoe, o fazem com a atitude de quem vai ver uma vaca premiada. Mas De Sica é um diretor inteligente demais para deixar por isso mesmo e todo esse machismo inegável vai ser impiedosamente dizimado no desenrolar da história - em que brilha o timing cômico da incomparável Sophia Loren, ao lado de Cuspet (Alfio Vita), um desamparado sacristão.

Neusa Barbosa


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