Eu estava em casa, mas...

Eu estava em casa, mas...

Ficha técnica


País


Sinopse

Depois da morte do marido, um diretor de teatro, a vida tem sido difícil para Astrid. Seus dois filhos, Phillip e Flo, sentem, cada um a seu modo as dificuldades desta ausência, que nenhum dos três consegue verbalizar.


Nota Cineweb

PéssimoRuimRegularBomÓtimo


Crítica Cineweb

07/06/2021

A diretora alemã Angela Schanelec faz um cinema rigoroso. Mantém as emoções de seus personagens na camada subcutânea, abaixo da superfície, e não se empenha em explicações. Cabe ao espectador deixar-se levar pelas imagens, não raro desconcertantes, e colocar em movimento a própria imaginação. 
 
Vencedor do Urso de Prata (melhor direção) no Festival de Berlim 2019, o drama  Eu estava em casa, mas… desenvolve uma narrativa que se abre como um caleidoscópio em várias direções, lançando um jogo da procura de seus possíveis nexos, que podem até não existir. Nada, afinal, é mais gratuito do que a própria vida. 
 
Construído a partir de planos longos, cuidadosamente elaborados, sugestivos de  pinturas, Eu estava em casa, mas…. adere à fragmentação a partir deste título interrompido. Deliberadamente lacônico, o filme começa num bosque, onde um cão persegue uma lebre. Pouco depois, ele é visto devorando-a, dentro de uma casa abandonada, onde há também um burro, que demonstra um interesse peculiar em olhar através de uma janela. 
 
Na sequência seguinte, um adolescente, usando uma roupa muito suja, é visto entrando num prédio. Logo saberemos que ele está voltando, depois de vários dias desaparecido, e que aquela é sua escola. Levaremos mais tempo para saber que ele se chama Phillip (Jakob Lassalle). Sua mãe, Astrid (Maren Eggert), virá correndo para recuperá-lo. 
O pequeno núcleo familiar, formado por Astrid, Phillip e sua irmã menor, Flo (Clara Möller), é, na verdade, o motor de várias situações, que se desenrolam com tensões visíveis - a ausência do pai, não verbalizada entre eles, parece ser a fonte de muitas crises, embora não esgote todas as possibilidades.
 
É fascinante como a diretora e roteirista, aqui em seu décimo filme, lança suas pistas em torno de Astrid, acompanhando-a em situações aparentemente corriqueiras, como quando vai comprar uma bicicleta usada, ou nadar numa piscina. É fato que o filme resiste a uma sinopse, por serem tantas as portas abertas, as discussões construídas em torno destes personagens e alguns outros que gravitam ao seu redor. Caso de um dos professores da escola de Phillip, Lars (Franz Rogowski), e sua dificuldade para manter um relacionamento com Claudia (Lilith Stangenberg), que acredita que sua missão é ficar sozinha, ainda que acredite amar Lars.
 
Muito sugestiva também é uma encenação de Hamlet, de William Shakespeare, que está sendo ensaiada pelos colegas de Phillip, numa alusão à orfandade do pai como a de tantas coisas mais. 
 
Quanto aos planos, é fato que se busca sair do óbvio em direção, não raro, a uma sublimidade que, eventualmente, lembra Carlos Reygadas - como a sequência em que Phillip carrega sua irmã nas costas, enquanto anda num pequeno riacho. Em mais de um momento, há uma sensação de tempo suspendido, um artificialismo de encenação que, aliás, é objeto de uma curiosa discussão em cena - entre Astrid e um diretor de cinema (Dane Komljen), cujo filme ela critica por ter justaposto a ‘verdade’ de um doente terminal ao ‘artificialismo” da encenação de um ator ou bailarino. Uma discussão que funciona como uma metáfora talvez do que a própria diretora esteja tentando dizer com este filme exigente e paradoxal, que requer abertura do espírito para fazer sentido para cada um.

Neusa Barbosa


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