King Kong en Asunción

Ficha técnica


País


Sinopse

Escondido na região desértica de Salar de Uyuni, um velho matador dá um tempo depois de seu último serviço. Logo deixará seu refúgio em busca de uma mulher do passado e de uma filha que nunca conheceu.


Nota Cineweb

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Crítica Cineweb

01/06/2021

Grande vencedor da 48a. edição do Festival de Gramado, escolhido como melhor longa tanto para o júri como para o público, o impactante King Kong en Asunción, do diretor pernambucano Camilo Cavalcante, traduz, em torno da trajetória solitária de seu protagonista (Andrade Jr.), uma metáfora da vida e da morte na América Latina. Este filme poderoso, multilíngue, de espírito latinoamericano, registra, aliás, o trabalho derradeiro do veterano ator, que morreu em maio de 2019 e venceu o prêmio póstumo de melhor interpretação masculina em Gramado.
 
Lamentavelmente, o ator não chegou a ver o filme pronto, apenas o começo. Um fato ainda mais lamentado na medida em que foi Andrade quem forneceu a fagulha inicial de uma história que começa a ser gestada em 2007, quando o ator e o diretor se encontraram, durante um festival em Nova Iguaçu. Uma performance cômica de Andrade imitando um gorila e uma posterior conversa sobre Ciudad de Leste, no Paraguai, de algum modo inflamaram a imaginação de Camilo, que começou a escrever um embrião de roteiro, muito modificado ao longo dos anos, e que só virou filme mesmo em 2017.
 
Foi uma longa e aventurosa jornada, que de todas as maneiras está refletida no filme, que acompanha o atormentado percurso do Velho (Andrade Jr.), um matador brasileiro que atravessa amplas paisagens e algumas cidades entre o Paraguai e a Bolívia, na procura de um acerto de contas com algumas das pendências mais cruciais de sua vida, envolvendo uma mulher, Constanza (Georgina Genes), há muito abandonada, e uma filha que ele jamais conheceu, Maria (Ede Colina).
 
É um road movie fortemente impregnado pela morte que, aliás, enuncia a poderosa narração em off que comenta, ironiza, profecia, explica tantas coisas no trajeto deste e de outros personagens - e que, acrescentando uma outra camada à trama, é dita em guarani, pela atriz paraguaia Ana Ivanova, premiada em Gramado por sua atuação em As Herdeiras (2018). 
 
A narração também substitui o silêncio deste homem solitário, visto indo embora a pé, depois de um “trabalho”, de um imenso e belo deserto - a paisagem rara do Salar de Ayuni, na Bolívia -, até chegar a uma estrada asfaltada, margeada, de um lado, pela imensidão da areia branca, de outro, por um curso d’água - uma das magníficas imagens em que o filme insere o Velho, na fotografia precisa de Camilo Soares, e que contrastam com a brutalidade inerente ao seu mister.
 
É um homem com muitas histórias, poucas raízes, compartilhando a vida com outros seres de existência precária, como seu agenciador, Chiquitano (Juan Carlos Aduviri), de bebedeira em bebedeira, constantemente atormentado por seus fantasmas - como se mostra na impressionante sequência que revela sua insônia. Um momento mais brando ocorre quando ele reencontra um amigo, o barbeiro (Fernando Teixeira), um raro episódio de intimidade com alguém a quem deve a vida. 

Sem psicologizar este homem duro, o filme abre brechas para seu entendimento, ao mostrá-lo menino (Maycon Douglas), relembrando o episódio definidor de sua trajetória trágica. E, fiel ao estilo do diretor, aqui em seu segundo longa (o primeiro foi o emblemático A História da Eternidade), desdobra-se uma história que aclara os contextos de um tempo e de um continente que absorve as violências, os massacres, pressiona os fracos e destituídos, privando-os dos afetos. Vista em comparação, tudo o que em A História da Eternidade é um mergulho no feminino, em King Kong en Asunción é um viagem no masculino. Não por outro motivo é importante a jornada do Velho em busca das mulheres que ele perdeu de vista décadas atrás e que poderiam ter dado à sua vida uma outra direção. Mas, a esta altura, não há espaço para lamentos, nem arrependimentos. O Velho simplesmente é o que é e continua na estrada, acompanhado pela intensa trilha sonora, um dos quatro Kikitos vencidos em Gramado 2020, assinada pelo argentino Shaman Herrera e pelo brasileiro Salloma Salomão.
 
Leia a entrevista com o diretor Camilo Cavalcante

Neusa Barbosa


Trailer


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