O Espírito da Colmeia

O Espírito da Colmeia

Ficha técnica


País


Sinopse

Ana e Isabel são duas irmãs, ainda na escola primária, na Espanha rural dos anos de 1940. Quando assistem ao filme "Frankenstein", de James Whale, numa sessão improvisada, acabam impressionadas. Ana, especialmente, fica obcecada por aquela figura, procurando-a em todos os lugares.


Nota Cineweb

PéssimoRuimRegularBomÓtimo


Crítica Cineweb

31/05/2021

Quase meio século depois de sua estreia, o espanhol O espírito da colmeia ainda assombra, seja na sua capacidade de figurar a história por meio da fantasia, ou por suas qualidades cinematográficas. Primeiro longa de Víctor Erice, na época, em 1973, com pouco mais de 30 anos e alguns curtas na bagagem, combina realismo social e o fantástico para falar da ditadura franquista no país, que estava com os dias contados e iria acabar dali a dois anos.
 
O cenário é um pequeno vilarejo no interior da Espanha, e o momento é 1940, pouco depois da Guerra Civil Espanhola, que levou o general Franco ao poder. É um paisagem devastada, marcada pelo isolamento e um céu sempre cinza, que parecem espelhar o estado emocional das personagens. O centro do filme é Ana (Ana Torrent) uma garota de 6 anos, filha de um homem claramente traumatizado pela guerra, Fernando (Fernando Fernán Gómez), que passa o tempo cuidando de abelhas, e Teresa (Teresa Gimpera), que escreve cartas para um suposto amante na França. Ana tem uma irmã um pouco mais velha, Isabel (Isabel Tellería), sua melhor amiga, companheira de travessuras e confidente nos seus medos e sonhos.
 
No início do filme as duas assistem a uma projeção improvisada de Frankenstein, o clássico de James Whale, de 1931, e isso deixa uma grande impressão em Ana, especialmente a criatura. Será uma imagem que a assombrará. Isabel explica que é só um filme e ninguém morreu de verdade. Mas também inventa que “o monstro” é um espírito que toma forma humana e pode ser invocado, se a irmã fechar os olhos e disser: “Sou Ana”. A partir desse momento, a menina fica obcecada em trazer esse espírito para o mundo. E, quando encontra um republicano ferido e escondido num celeiro, ela acredita que conseguiu.
 
Apesar da ditadura, no momento da produção do filme, estar ruindo, ainda não se era possível falar de certas coisas abertamente. Erice, trabalhando com um roteiro escrito por ele e Ángel Fernández Santos, aborda a questão de maneira tangencial. Ao colocar uma criança como centro e ponto de vista da narrativa, o diretor consegue trazer para o filme a incompreensão dela das coisas que estão acontecendo em seu país. O público tem uma capacidade de compreensão maior. Os pais das garotas estão mergulhados num luto, cada um no seu. Os membros da família estão cada em um mundo próprio, e jamais são mostrados no mesmo plano no filme – nem quando estão todos na mesa para jantar.
 
Apesar de existirem abelhas no filme, a ideia do “espírito da colmeia” tem, claramente, um sentido figurado. A casa, com suas janelas em formatos de alvéolos, a colmeia e cada um de seus habitantes abelhas que seguem sua função. A fantasia do soldado republicano ferido ser tomado como o espírito materializado, cuja companhia é almejada e temida por Ana, também explica muita coisa. Por muito tempo, a criatura – inventada por Mary Shelley, e, erroneamente, algumas vezes tratada pelo nome de seu criador, Dr. Frankenstein – foi chamada de monstro, até que a percepção mudou: monstro é o médico Victor Frankenstein que a “montou” a partir de pedaços de cadáveres. Em Ana, é necessário haver essa transformação: aquele que ela teme, o republicano, não é quem lhe fará mal.
 
A toda essa compreensão da história, soma-se a O Espírito da Colmeia a capacidade de Erice de dar forma altamente cinematográfica ao seu material. O diretor de fotografia do filme, Luis Cuadrado, estava perdendo a visão e, para iluminar o longa, precisava de ajuda de polaroides. Talvez por isso as imagens carreguem em si algo de etéreo, sobrenatural, o que casa perfeitamente com a proposta do filme. Tudo é de uma melancolia muito grande, até as brincadeiras das meninas. E, em última instância, aqui há também uma homenagem ao cinema, não apenas à sua magia, mas também à capacidade de trazer à tona mazelas e denúncias como nenhuma outra manifestação artística.

Alysson Oliveira


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