Trópico Fantasma

Trópico Fantasma

Ficha técnica


País


Sinopse

Khadija tem 58 anos e é uma imigrante do Magreb vivendo em Bruxelas. Ela trabalha na equipe de faxineiros de uma empresa e, numa noite, dorme no último metrô de volta. Do outro lado da cidade, ela tenta voltar para casa.


Nota Cineweb

PéssimoRuimRegularBomÓtimo


Crítica Cineweb

24/05/2021

O terceiro filme do diretor belga Bas Devos começa e termina na sala de um apartamento, que no começo não se sabe onde fica e a quem pertence. Essa amostra de um lar é uma metáfora do lugar no mundo que temos, escolhemos e criamos, um conceito que se torna mais nítido quando se descobre a protagonista, Khadija (Saadia Bentaïeb), uma imigrante muçulmana do Magreb radicada em Bruxelas.
 
Mulher madura, de 58 anos, ela trabalha na equipe de limpeza de uma empresa. É apresentada nesse contexto, ao lado de colegas de várias idades e origens étnicas, unificados pelo uniforme de trabalho e por um momento de folga, em que compartilham a história contada por um deles. É um intervalo de descontração, revelando de imediato a intenção do diretor e roteirista de fugir do estereótipo de reduzir estes personagens ao mundo do trabalho. De um trabalho, aliás, invisibilizado, realizado à noite, depois que acaba o expediente das empresas, mas nem por isso menos essencial.
 
A invisibilidade social é, de vários modos, inerente a toda a jornada de Khadija, que está para começar quando termina sua noite de trabalho. Embarcando no último metrô, ela cochila e acorda somente no final da linha. Do outro lado da cidade, ela tem que encontrar um jeito de voltar para sua casa, no bairro de Molenbeek - que ficou tristemente famoso, em 2016, por abrigar os autores de atentados que mataram 32 pessoas e feriram outras 300 em Bruxelas. 
 
Trópico Fantasma situa-se, inapelavelmente, nesse mundo dos habitantes da noite, todos trabalhadores. Ao longo de seu longo percurso de volta, na maior parte percorrido a pé, Khadija interage com um segurança de shopping (Stefan Gota), a caixa de uma loja de conveniência (Maaike Neuville), um paramédico (Cédric Luvuezo), funcionários de um hospital, passageiros de um ônibus noturno que, afinal, não parte. Esta mulher, aparentemente invisível, sobretudo socialmente, é capaz de estabelecer conexões, construindo uma espécie de espaço próprio - que é o da narrativa, onde ela tem uma relativa liberdade, solta inesperadamente das amarras de uma rotina invariável, na qual ela não tem muito tempo livre.
 
Da mesma forma que está definido seu objetivo de voltar para casa, Khadija parece disposta a observar com um pouco mais de calma as ruas que passam pelas janelas do transporte que costuma tomar. Ela mostra curiosidade sobre o que vê e também empatia - não é por outro motivo que acaba chamando ajuda para um morador de rua (Guy Dermul), abatido pelo frio. 
 
O que é fascinante neste filme de aparente simplicidade, com diálogos escassos e uma crença absoluta no poder das imagens - filmadas num peculiar 16 mm pelo diretor de fotografia Grimm Nandekerckove - é o poder sutil para instigar nossa imaginação para seguir a jornada de Khadija, compartilhando seus sentimentos através de seus atos. Não há narração ou voice over explicando nada, o que torna a participação do espectador mais necessária e gratificante. 
Há momentos de uma leve sugestão de afastamento do realismo, especialmente numa situação, no final, com o cachorro do sem-teto deixado para trás. É um dos momentos em que a empatia de Khadija é mais enfatizada.

Outro aspecto da identidade da protagonista é desvelado quando ela vislumbra a filha de 17 anos (Nora Dari) andando na rua e bebendo com amigos. Logo mais, a garota fica sozinha com um rapaz, numa situação de namoro. É visível, nessa sequência em que a mãe se esconde e espia, toda a divisão que afasta a geração da mãe imigrante e da filha, um abismo de experiências e projetos de futuro muito diferentes  - o que fica ainda mais explícito na sequência final, numa praia.

Neusa Barbosa


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