Alice e o Prefeito

Ficha técnica


País


Sinopse

Alice é jovem e ainda em dúvida sobre o que quer da vida. Após uma temporada em Oxford, retorna a Lyon, onde é contratada pela prefeitura como assessora. Entre suas funções está ajudar o prefeito a sair de uma crise existencial usando filosofia.


Nota Cineweb

PéssimoRuimRegularBomÓtimo


Crítica Cineweb

24/05/2021

Há algo de rohmeriano em Alice e o Prefeito. E não é apenas o título, ou a presença de Fabrice Luchini, que trabalhou com Éric Rohmer em A árvore, o prefeito e midiateca, no qual interpretou um professor ecologista. É que tudo aqui se resolve na base dos diálogos – uma estratégia típica do diretor de O joelho de Claire. Escrito e dirigido por  Nicolas Pariser, o longa tem como protagonista uma jovem formada em Letras que é contratada para trabalhar na prefeitura, e acaba com a função de dar conselhos filosóficos ao governante. A jovem é interpretada com sagacidade e delicadeza por Anaïs Demoustier, que ganhou o César de Melhor Atriz por esse trabalho em 2020.
 
O filme começa com Alice em seu primeiro dia de trabalho na prefeitura de Lyon, uma cidade governada por Paul Théraneau (Luchini), um prefeito de esquerda que, depois de três décadas na vida pública, está em crise existencial. Nada o ajuda, terapia, yoga, ou qualquer outra coisa, mas Alice, que é formada em Letras, e “leu filosofia na escola” é, na opinião dele, a solução para seu problema.
 
Só um político francês mesmo para usar a filosofia como saída para seus problemas existenciais. Ele acredita que, com o apoio de Alice, pode melhorar ainda mais o socialismo. Alice, mais do que protagonista, é o centro de consciência do filme, e tudo o que vemos é filtrado pelo olhar dela. Chegamos com ela à prefeitura, e, com ela, entendemos a dinâmica de poder ali dentro, as pessoas sempre nervosas, as reuniões tensas, as discussões dos marqueteiros – enfim, tudo.
 
Alice acaba se envolvendo no trabalho mais do que devia, e logo sua vida pessoal é invadida pelas questões da prefeitura. É preciso estar disponível o tempo todo. A jovem parece, num primeiro momento, se encaixar nesse mundo. Ao contrário das outras assessoras, suas roupas são casuais e ela parece ter zero de ambição de crescer nesse mundo predatório. A questão do filme é: Alice irá resistir, e, sim, como?
 
Pariser tem um olhar apurado para as dinâmicas de poder – tanto pessoal quanto público. Há uma série de negociações que o filme observa com curiosidade – a mesma de Alice, que é nova nesse mundo – e olhar crítico. A hipocrisia parece imperar. A protagonista, sem qualquer aviso prévio, é designada a uma reunião com um grupo de professores (“porque ela tem a mesma formação que eles”), que trabalham com imigrantes, porque a pessoa que se reuniria com eles teve outro compromisso “mais importante”. É uma cena simples mas reveladora dentro do filme, quando a jovem é confrontada por um dos professores. Ela diz que se empenhará ao máximo para levar os problemas ao prefeito. Mas e daí? Talvez seja o momento em que ela perceba sua impotência naquele cenário.
 
Entre os coadjuvantes, a presença da comediante francesa Nora Hamzawi, que, obviamente, serve como um alívio cômico entre as tensões políticas e existenciais do filme. Mas, claro, Alice e o Prefeito é de Demoustier, e, em certa medida, de Luchini. Ele tem um papel ingrato de um sujeito vaidoso e um tanto arrogante, mas que, aos poucos, revela isso como carapaças para a vida pública. Já ela é o olhar crítico sobre isso, e a possibilidade de mudança.
 
Num momento em que, mundialmente, a discussão política anda tão rasteira, Pariser coloca o tema ao centro e faz um filme político, sem o ser gritante e explicitamente. Alice e o Prefeito mais sugere do que aponta, e nisso está seu trunfo, seu charme.

Alysson Oliveira


Trailer


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