Cine Marrocos

Ficha técnica

  • Nome: Cine Marrocos
  • Nome Original: Cine Marrocos
  • Cor filmagem: Colorida
  • Origem: Brasil
  • Ano de produção: 2019
  • Gênero: Documentário
  • Duração: 76 min
  • Classificação: 12 anos
  • Direção: Ricardo Calil
  • Elenco:

País


Sinopse

Um antigo cinema abandonado no centro de São Paulo serve de moradia para um grupo de sem-teto. Estes, por sua vez, serão transformados em estrelas de encenações de filmes antigos que foram exibidos naquela sala. Entre uma cena e outra, descortina-se a realidade brasileira.


Nota Cineweb

PéssimoRuimRegularBomÓtimo


Crítica Cineweb

18/05/2021

Uma figura quase messiânica – com uma impressionante semelhança física com o escritor inglês Alan Moore – abre o documentário Cine Marrocos. Sentado numa plateia de madeira do antigo cinema paulistano, ele diz: “Não confiem em mim, pois maldito é o homem que confia em outro homem.” Para um documentário – um gênero pautado pelo contato com o real –, essa é uma abertura, no mínimo, intrigante. Seguem-se imagens dos dias de glória da sala, situada no centro da cidade de São Paulo, que foi conhecida como a mais luxuosa da América Latina.
 
Inaugurado em 1951, o prédio foi ocupado pelo MTST em 2013, e são esses moradores que ganham voz no filme dirigido por Ricardo Calil, vencedor do prêmio principal na Competição de Longas Nacionais, do Festival É Tudo Verdade, de 2019. Na sala gigante, os moradores e moradoras assistem a Crepúsculo dos Deuses, um filme sobre decadência física e emocional de uma estrela do cinema (Gloria Swanson), o que parece espelhar a própria trajetória da sala, que, de certa forma, ganhou sobrevida quando foi ocupada.
 
Quando aquela figura marcante do início do filme, Valter, volta à cena, ele sugere que as pessoas que vivem no antigo Cine Marrocos assistam a filmes antigos, que foram exibidos na sala num festival internacional em 1954, e suas cenas sejam reproduzidas. Ele será o diretor. Línguas se misturam nas entrevistas, homens e mulheres de diversos cantos do mundo, cujo destino levou a São Paulo. Nesse momento, o documentário acompanha uma espécie de processo criativo que ainda não se sabe onde chegará.
 
Em seus documentários – uma filmografia que inclui Uma noite em 67, codirigido por Renato Terra, e Os Arrependidos, vencedor do É Tudo Verdade de 2021, este codirigido com Armando Antenore –, Calil mostra uma grande curiosidade pelo material humano. Sua experiência como jornalista certamente o ajuda na condução das entrevistas, e com elas compõe um vasto painel do mundo contemporâneo – ao menos, do mundo pré-pandemia. Aqui, ele entrega seu filme formal e esteticamente mais ambicioso, pegando certa inspiração no Jogo de Cena, de Eduardo Coutinho, mas sem a charada do que é real e do que é performance. A encenação é clara e assumida.
 
Entre um exercício de atuação e outro, emergem histórias de conflitos mundiais, de vidas destroçadas, de novas esperanças. Durante esses momentos, em que fazem cenas de filmes antigos, o mundo do lado de fora parece não existir. São momentos de poesia visual. A questão que pode emergir disso é uma espécie de estetização da miséria, mas o respeito e o carinho que o filme tem por essas figuras aponta o contrário. O que esses momentos realmente parecem ser são respiros em vidas para quais a arte não é uma preocupação no momento.
 
Chega uma hora, porém, em que a realidade bate à porta, através de uma operação policial. Pouco depois, vem a reintegração de posse do prédio. Valter, novamente ele, canta melancolicamente Saudosa Maloca, de Adoniran Barbosa, enquanto os moradores deixam o Cine Marrocos, fazendo, mais uma vez, o paralelo que o filme faz o tempo todo, aquele entre a vida, a sociedade e a arte.

Alysson Oliveira


Trailer


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