Um divã na Tunísia

Ficha técnica


País


Sinopse

Selma é uma jovem tunisiana que vive na França desde criança. Quando se forma psicanalista, decide voltar a seu país e abrir ali seu consultório. A novidade atrai diversos curiosos, lhe traz sucesso mas também a coloca na mira de um policial, Naim, que a pressiona para que regularize seu registro.


Nota Cineweb

PéssimoRuimRegularBomÓtimo


Crítica Cineweb

12/05/2021

A cineasta franco-tunisiana Manele Labidi recorre a Freud como inspiração para esta sua comédia dramática de estréia. A ideia é botar no divã o país de sua raízes, escolhendo como sua guia uma jovem psicanalista, Selma (Golshifteh Farahani), que, apesar de viver desde criança na França, decide voltar ao seu país de origem para abrir seu consultório.
 
É um recurso esperto da história ter ao seu centro esta mulher emancipada, culta e de figurino ocidentalizado para adentrar um território cheio de contradições, oscilando entre uma pretendida modernidade e os resquícios da rígida tradição muçulmana e do machismo, muito fortes ambos e afetando não só a vida das mulheres.
 
Selma, cujo pai vive exilado e cuja mãe sofreu injustiças não reveladas, assume para si encarar este mundo que lhe é hostil para inventar uma nova identidade. Ocupando um pequeno apartamento acima do de seu tio Mourad (Moncef Ajengui), ela percorre hospitais e até um salão de cabeleireiro para divulgar seu novo consultório - que tem na parede um curioso retrato do pai da psicanálise, Sigmund Freud, portando um tarbush, tipo de chapéu usado pelos homens árabes.
 
Falando com leveza de coisas sérias, o filme opta por suavizar muitos dos conflitos de Selma em seu novo ambiente, em que, surpreendentemente, ela tem sucesso. Filas de clientes aglomeram-se à sua porta, ávidos por desfrutar da novidade representada por esta profissional. Não sem alguns malentendidos, especialmente por parte de clientes homens.
 
Selma representa, antes de mais nada, um incômodo dentro da própria família. Desde sua chegada, seu tio não se cansa de dissuadi-la de permanecer ali. Sua cunhada, Amel (Ramla Ayari), não a vê com bons olhos. Apenas sua prima, Olfa (Aicha Ben Miled), enxerga nela um reforço para sua rebeldia, até ali um tanto sem rumo.
 
Nem todas as dificuldades de Selma são familiares. Ela desembarcou num país atolado numa burocracia lenta e sufocante, como ela é forçada a encarar quando descobre que precisa obter uma licença para atender - o que a coloca na mira de um policial, Naim (Majd Mastoura). 
 
Agradável como é, o filme tem contra si um caráter um tanto episódico, como se a diretora procurasse incluir no divã de Selma todos os tipos do país, fragmentando a narrativa. Apesar disso, são interessantes personagens como o de um imã (Jamel Sassi) deprimido - que, sem tornar-se paciente de Selma, é capaz de dialogar francamente com ela - e o padeiro Raouf (Richem Yacoubi), homem em conflito com sua homossexualidade, cuja interpretação ganharia muito, porém, se fosse um pouco menos impregnada de caricatura. 
 
A própria protagonista, afinal, carece de algum desenvolvimento nas motivações de sua cruzada solitária. Mas credite-se as fragilidades a uma diretora estreante, que parece ter pretendido dar conta de todos os aspectos da realidade complexa de um país no qual estão suas origens. Elogie-se, no entanto, sua disposição a colocar uma personagem feminina neste mundo conflituoso com tanta energia e determinação.

Neusa Barbosa


Trailer


Deixe seu comentário:

Imagem de segurança