Mulheres à beira de um ataque de nervos

Mulheres à beira de um ataque de nervos

Ficha técnica


País


Sinopse

Pepa é dubladora em Madri e acaba de ser abandonada pelo amante e colega de trabalho Iván. Enquanto ela se divide sobre lhe entregar pessoalmente ou não a mala com seus pertences, ela percorre Madri à procura dele e vira alvo de Lucia, ex-mulher dele. Ao mesmo tempo, a amiga de Pepa, Candela, descobre que o rapaz estrangeiro com quem se envolveu é, na verdade, um terrorista xiita.


Nota Cineweb

PéssimoRuimRegularBomÓtimo


Crítica Cineweb

11/05/2021

A formidável galeria feminina deste filme garantiu ao cineasta espanhol Pedro Almodóvar consagração mundial e ter seu nome inscrito entre os grandes realizadores, respeitados por sua originalidade. A partir dele, e não só pelo grande número de prêmios e indicações que alcançou - como uma indicação ao Oscar de filme estrangeiro, prêmio de melhor atriz e roteiro em Veneza e cinco Goyas -, um diretor até ali alternativo tornou-se marca internacional. De quebra, com direito a adjetivo para seu estilo - hoje, todo mundo sabe o que é um filme, um personagem, um figurino almodovariano.
 
As famosas cores fortes que caracterizam o universo do diretor - decoração de sets de Felix Murcia, fotografia de Jose Luis Alcaine - comparecem aqui com todos os seus tons quentes e intensos, espalhando-se pelo cenário e os figurinos de Pepa (Carmen Maura), a protagonista transtornada pelo abandono do ex-amante Iván (Fernando Guillén). Os dois trabalham num estúdio de dublagem, onde emprestam suas vozes aos dramas românticos em cartaz, criando uma metáfora para essa transferência de emoções que a arte permite.
 
Com roteiro assinado pelo próprio Almodóvar, o filme estrutura-se em torno de diversos imbroglios amorosos - além de Pepa, continua obcecada pelo volúvel Iván sua ex-mulher, a muito louca Lucia (Julieta Serrano), e haverá outras; a amiga de Pepa, Candela (Maria Barranco), que se envolveu, sem saber com terroristas xiitas e agora foge da polícia; Marisa (Rossy de Palma), noiva de Carlos (Antonio Banderas), o filho de Iván que veio ver com ela o apartamento que Pepa pensa em deixar e cujo relacionamento começa a balançar.
 
Embora o apartamento de Pepa seja o epicentro da rocambolesca trama, não se pode deixar de mencionar o inesquecível mambo-táxi de decoração tigrada, dirigido por um solícito motorista de cabelos oxigenados (Guillermo Montesinos), que sempre aparece à porta de Pepa quando ela precisa deslocar-se por Madri, geralmente à procura deste esquivo Iván. 
 
A narrativa desliza gostosamente pela anarquia destes amores contrariados, compondo uma comédia de erros temperada com pimenta - tempero do qual não há melhor símbolo do que o peculiar gaspacho preparado por Pepa, que tantos efeitos causa em cascata na metade final do filme. 
 
Da saborosa galeria de atrizes almodovarianas, várias estão por aqui em papeis secundários mas sempre dignas de nota - como a secretária do estúdio de dublagem vivida por Loles León ou a porteira Testemunha de Jeová interpretada pela impagável Chus Lampreave. Depois de Mulheres à beira de um ataque de nervos - cujo remake Hollywood ousou cogitar, felizmente sem resultado até agora -, o próprio conceito de personagem feminina se ampliou muito além do espectro entre santas, vítimas ou vulgares. Não mais apenas as loiras esculturais ou as mocinhas ingênuas que Hollywood produziu em série, ou as damas fatais do universo noir. As personagens almodovarianas são donas de sua própria vida amorosa e sexual, dispostas a correr atrás de paixões geralmente complicadas, o que as leva de encontro a muitas confusões, com direito a toda a sua intensidade latina, mas reinventando-se cada uma a seu modo. Esta é também uma definição de liberdade.

Neusa Barbosa


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