Segredos e Mentiras

Segredos e Mentiras

Ficha técnica


País


Sinopse

Cynthia é uma operária que leva uma vida medíocre e é emocionalmente abusada pela filha. Tudo muda quando é procurada por uma mulher dizendo ser a criança que ela entregou à adoção décadas atrás.


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Crítica Cineweb

27/04/2021

Atualmente, Mike Leigh é um dos principais nomes do cinema inglês contemporâneo. Mas, antes de Segredos e Mentiras, ganhador da Palma de Ouro e prêmio de atriz (para Brenda Blethyn) em Cannes, em 1996, e indicado a cinco categorias no Oscar no ano seguinte, ele era quase um ilustre desconhecido. Não que ele não estivesse fazendo filmes há mais de duas décadas, entre eles algumas joias, como High Hopes e Naked, mas ele não era conhecido fora de um pequeno círculo cinéfilo.
 
Hoje, ele pode ainda não ser tão conhecido do grande público, mas é um dos principais realizadores da atualidade, especialmente pelo seu olhar generoso com a classe trabalhadora inglesa – tantas vezes ignorada ou mal representada no cinema. Segredos e Mentiras está entre suas obras-primas – uma lista que também inclui Agora ou Nunca, Um Ano a Mais e Simplesmente Feliz.
 
Segredos e Mentiras é um pequeno milagre sobre a vida de pessoas simples – a maioria dos filmes dele o são – em momentos de complexidade. Essa é a história de uma mãe que entregou a filha à adoção e, anos depois, esta, agora adulta, a procura. Poderia ser um melodrama, um vale de lágrimas de culpa e expiação, mas nas mãos de Leigh, que também assina o roteiro, é um estudo de classe sério, mas não sisudo, repleto de alegrias e tristezas, tal qual a vida real. Há uma complicação ainda maior na história dessa mãe e filha: uma é branca, e a outra, negra – o que toca em mais um assunto espinhoso, o racismo.
 
Blethyn interpreta Cynthia, a mãe, uma operária que nunca teve muitas alegrias ou sorte na vida, e precisou tomar uma decisão muito difícil ainda jovem: entregar sua filha para a adoção. Ela mora com outra filha, a jovem Roxanne (Claire Rushbrook), com quem vive em conflito, e afoga suas mágoas no álcool. Ela tem um irmão, o fotógrafo Maurice (Timothy Spall, presença constante nos filmes de Leigh, e excelente, como sempre, aqui), cujo casamento com Monica (Phyllis Logan) está em crise, pelo acúmulo de frustrações e infelicidades ao longo dos anos.
 
A filha perdida, Hortense (Marianne Jean-Baptiste), é a única personagem centrada do filme. Ela é optometrista, tem uma vida confortável e estável, mas agora que os pais adotivos morreram, decide que está na hora de procurar sua mãe biológica - e a surpresa é grande ao descobrir que a mulher é branca. Isso, no entanto, não serve como uma grande questão sobre a discussão do racismo, que culminaria numa grande lição típica de Hollywood, por exemplo. Leigh é contido, constrói suas discussões e temas por meio de suas personagens e suas vidas comuns. Para ele, o pessoal é político. Os encontros entre as duas são, inicialmente, estranhos e furtivos, mas, aos poucos, elas se aproximam e descobrem que uma precisa da outra, mesmo que nem soubessem disso.
 
É impressionante como, filme após filme, até em seu mais recente, Peterloo, de 2018, o diretor consegue mergulhar na vida dessas personagens – aquelas que no Brasil convencionou-se chamar de gente do povo. A visão que ele tem dessas figuras é sincera e sem qualquer traço de condescendência, é de curiosidade por buscar o que as move na vida, o que as faz sair da cama todos os dias e continuar vivendo.

Alysson Oliveira


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