O trabalho dela

Ficha técnica


País


Sinopse

Casada e mãe de dois filhos, Panayiota desdobra-se como dona-de-casa, tolerando um marido mandão e machista, Kostas. No contexto da grande crise econômica grega, é ela quem acaba arranjando um emprego, como faxineira de um shopping, tornando-se a provedora da família. Isto lhe abre um mundo novo e não menos difícil.


Nota Cineweb

PéssimoRuimRegularBomÓtimo


Crítica Cineweb

21/04/2021

Descolando-se de um passado impregnado pela poesia de Michael Cacoyannis e Theo Angelopoulos, o cinema grego contemporâneo fixa-se, cada vez mais, num atento exame de um mal-estar latente no país, afogado numa imensa crise econômica que devastou os empregos, aposentadorias, a auto-estima e fez duvidar da herança histórica da pátria do teatro, das ciências e da filosofia.
 
Insere-se nesta toada Nikos Labot, diretor e roteirista de O Trabalho Dela, um estudo de personagem indissociavelmente ligado ao exame de seu contexto, como identifica tão bem o título em português. De quebra, o filme nos apresenta uma extraordinária atriz, Marisha Triantafyllidou, em cujos olhos e pele sua personagem, Panayiota, ganha uma encarnação verdadeiramente visceral e autêntica, que suscita empatia e comove profundamente.
 
Ela é a mãe de uma família verdadeiramente à flor da pele, transtornada pelo desemprego, o subemprego e todas as tensões decorrentes, despindo de componentes mínimos de afeto até mesmo as mais íntimas relações familiares.
Mulher que veio do campo, com escolaridade precária, Panayiota tornou-se aquela dona-de-casa obcecada por atender a todas as tarefas, respondendo com ansiedade ao domínio de um marido machista, Kostas (Dimitris Imellos).
 
Ela parece que mal respira, desdobrando-se para cozinhar, lavar, passar, limpar e atender aos caprichos de uma filha gulosa e mimada, Geórgia (Danae Primali), pré-adolescente que já começa a oprimir a mãe, seguindo o modelo paterno. Só o caçula, Apostolis (Orfeas Aggelopoulos), ainda guarda alguma inocência e delicadeza para compartilhar com a mãe, uma alma doce que não conhece o próprio valor.
 
As circunstâncias levam a que ela consiga, pela primeira vez na vida, um emprego fora de casa, como faxineira de um novíssimo shopping center - aquele centro de consumo sofisticado que subsiste, contra toda lógica, em uma situação de tanta carência e desigualdade social. Superando a própria timidez e inexperiência, Panayiota consegue o trabalho e, pela primeira vez, torna-se a provedora da família, o que lhe abre um mundo novo. Ela passa a ter sua própria conta bancária e a conviver com outras mulheres, pela primeira vez tendo um núcleo de colegas e amigas com quem descobre que a condição feminina compreende muito mais nuances do que ela se dava o direito de imaginar.
 
No trabalho precário, de contratos temporários que têm que ser permanentemente renovados e sem nenhuma garantia, Panayiota esmera-se, como em casa, tornando-se a funcionária-modelo, que nunca recusa nada, muito menos substituir alguém que falte ou fazer horas extras. Mas, no meio disso tudo, o que sobra para ela existir?
 
Labot mostra-se um diretor atento às nuances da personagem, deixando crescer o seu arco, sem perder de vista o conflito permanente com um marido que não quer perder o controle da situação e um contexto econômico francamente esmagador. Panayiota torna-se, enfim, um paradigma de tantos trabalhadores e trabalhadoras num mundo, não apenas na Grécia, sufocado por um modelo ultraneoliberal que falhou tragicamente em termos sociais, ambientais e humanos.

Neusa Barbosa


Trailer


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