O carteiro e o poeta

O carteiro e o poeta

Ficha técnica


País


Sinopse

Em 1952, o poeta Pablo Neruda é exilado e vem viver numa ilhota italiana. Mario, filho de um pescador, arranja emprego temporário para ser o carteiro e levar a correspondência ao poeta. Entre os dois, começa uma amizade que muda a vida de Mario.


Nota Cineweb

PéssimoRuimRegularBomÓtimo


Crítica Cineweb

07/04/2021

Há filmes como este, que permanecem no imaginário do público não raro por toda a vida, atingindo espectadores de formação e sensibilidade muito diferentes. Essa sobrevivência das emoções suscitadas pelo longa, vencedor de dois Oscar em 1994 (ator e trilha sonora), certamente são produto de uma série de encontros felizes – da história original de Antonio Skármeta (o livro Ardente Paciência, que rendeu filme homônimo dele, em 1983), da música envolvente do argentino Luis Bacalov, da direção sensível do inglês Michael Radford e da imensa dedicação de todo o elenco, em particular do protagonista, o italiano Massimo Troisi, que literalmente entregou sua vida ao filme. Ciente de seus problemas cardíacos, ele adiou o tratamento para realizar a produção e morreu, poucas horas após concluídas as filmagens, aos 41 anos. Além do mais, O Carteiro e o Poeta tornou-se o seu testamento artístico.
 
Dentre a série de escolhas felizes, está a escalação do francês Philippe Noiret para o papel do poeta chileno Pablo Neruda. A sensibilidade do ator trava um diálogo preciso com a espontaneidade contida da interpretação de Troisi, que encarna de modo certeiro a verdade de seu personagem, o carteiro Mario Ruoppolo.
 
Da história de Skármeta, a partir de fatos reais da vida de Neruda, foram feitas várias mudanças, começando pelo deslocamento da local original (a Isla Negra, no Chile) e a idade do carteiro, que tinha 17 anos. No filme de Radford, o carteiro tem cerca de 35 anos e vive numa ilhota do sul da Itália, Cala di Soto, onde a única opção é tornar-se pescador, como seu pai. Mas Mario não se adapta a essa vida, gostando de coisas aparentemente fora de seu alcance, como o cinema, onde ele passa horas fascinado. Em 1952, o exílio do poeta Neruda na ilha dá-lhe a oportunidade de um trabalho temporário, tornando-se o carteiro para o único habitante local que recebe uma farta correspondência. Boa parte dos moradores, aliás, são analfabetos.
 
É deste convívio que a história extrai sua matéria-prima, permitindo ao carteiro ampliar seu mundo intelectual e imaginativo a partir das conversas com o poeta – que tem o condão de mudar a vida de Mario, influenciando sua vida amorosa, a partir do namoro com a bela Beatrice (Maria Grazia Cucinotta), a garçonete do barzinho local.
 
O filme não atingiria a densidade que tem se não incorporasse à sua trama as intrigas políticas locais – com seu eleitorado manipulado pelas promessas de um caudilho local, Cala di Soto é mantida sem água encanada. Além disso, num contexto cultural acanhado, a estreita moral da ilhota sofre o peso de um catolicismo impregnado de anticomunismo, que domina a mentalidade dos pescadores. Por tudo isso, Mario torna-se uma pessoa rara, que tem apenas um interlocutor, fora do poeta – o telegrafista do pequeno correio, Giorgio (Renato Scarpa), que é comunista e compartilha suas leituras com o novo funcionário.
 
Embora seja inegavelmente emotivo e contemple diversos momentos de humor – aproveitando o timing melancólico de Troisi para seu personagem -, a história alterna um antes e um depois dessa convivência iluminadora com o poeta, à qual não faltam decepções para o ex-carteiro. Do tecido dessa melancolia, o filme traça sua verdade existencial, seu chamado ético e tantos outros caminhos que ele é capaz de suscitar, inclusive tantos anos depois de seu lançamento. O Carteiro e o Poeta carrega a verdade doída dessas coisas eternas.

Neusa Barbosa


Deixe seu comentário:

Imagem de segurança