Jeanne Dielman

Jeanne Dielman

Ficha técnica


País


Sinopse

Jeanne Dielman é uma viúva que vive com seu filho, um jovem adulto chamado Sylvain, em Bruxelas. Dona de casa, para aumentar a renda, ela se prostitui sem que ele saiba. Um dia, porém, toma uma atitude drástica.


Nota Cineweb

PéssimoRuimRegularBomÓtimo


Crítica Cineweb

31/03/2021

Clássico absoluto do cinema feminista, e uma das obras-primas da belga Chantal Akerman – a outra é o documentário Notícias de Casa –, Jeanne Dielman, de 1975, é um dos filmes obrigatórios daquela década. O retrato do fastio e da opressão de uma dona de casa é construído aqui de maneira meticulosa e calma, em pouco mais de 200 minutos, dos quais, considerável parte consiste na personagem-título (Delphine Seyrig) sentada na mesa da cozinha descascando batatas.
 
O título original do filme – Jeanne Dielman, 23, quai du commerce, 1080 Bruxelles – inclui o endereço completo da personagem, que é seu espaço de atuação, seu confinamento, sua prisão domiciliar, onde faz de tudo, desde o trabalho doméstico, até o “bico” como eventual prostituta nas horas vagas, enquanto o filho, Sylvain (Jan Decorte), está fora de casa. O poder de Jeanne está em ser a mandante dentro do seu reino, que é seu apartamento. Ela faz tudo com perfeição, gosto e de maneira metódica, prepara as batatas, atende seu cliente do dia, e volta para terminar o jantar.
 
Apesar da longa duração, este é um filme contido. As coisas custam a acontecer, e muito pouco abala a rotina milimetricamente estabelecida. Há poucos diálogos, e o som é marcado por aquele do cotidiano. Akerman filma com precisão, metodicamente e com certo distanciamento emocional. Há algo de kubrickiano em sua câmera estoica, que observa sem fazer julgamentos, numa distância quase documental, Jeanne sentada à mesa da cozinha com suas batatas. A personagem é como milhares de mulheres – especialmente na época em que o filme foi feito – presas à sua rotina doméstica, sem expectativas de se libertar.
 
O sexo não tem nada de libertador, pelo contrário, é mais um trabalho que gera uma renda extra para o lar. A atividade é mostrada de maneira tão banal que é como se fosse mais uma das tarefas obrigatórias de uma dona-de-casa. É nesses momentos que o roteiro, também assinado por Akerman, transforma a protagonista numa espécie de “estranho” freudiano, e nos tira o chão pela maneira como a viúva Jeanne tenta conciliar dois papéis aparentemente contraditórios para a sociedade.
 
O filme é dividido em três dias. No primeiro, tudo acontece de maneira planejada, e a montagem evidencia a rotina e as atividades. O acender e apagar de luzes acentuam a economia doméstica de que nada pode ser desperdiçado – o dinheiro é curto. A interpretação de Seyrig impressiona com seu rosto tão impassível que parece destituído de emoções, fadado ao seu destino sobre o qual parece não ter poder. Mais tarde, as coisas parecem fora do lugar (o café não fica bom, ela derruba um talher, não abotoa a roupa direito), e é o indício de que algo irá acontecer.
 
Jeanne toma uma atitude, que muda tudo, recolocando as três horas anteriores em nova perspectiva. É o única agência que a personagem tem, e nos deixa sem chão porque o que ela fez pode ser condenável, mas, num plano simbólico, também pode ser a liberdade que ela não sabia almejar. A cena soa gratuita, puramente para efeito de choque, mas é nos desestabilizar que Akerman procura e encontra aqui. Como aquela mulher que parecia destituída de emoções foi capaz de fazer o que fez? O filme não traz respostas, esse não é o objetivo da diretora, mas levanta as questões que precisam ser levantadas naquele momento, muitas perdurando até hoje.


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