O Piano

O Piano

Ficha técnica


País


Sinopse

Na Nova Zelândia do século 19, chega a imigrante Ada McGrath, com sua filha pequena, para um casamento de conveniência com um rico proprietário rural, Alisdair Stewart. Logo à chegada, ele se recusa a mandar carregar para casa o piano que ela traz, sua principal forma de expressão, já que é muda. Um trabalhador, George Baine, faz um acordo para levar o piano para sua própria casa. Depois, este piano será a forma de aproximação entre Ada e George.


Nota Cineweb

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Crítica Cineweb

24/03/2021

Independentemente da enorme quantidade de prêmios deste filme extraordinário - começando pela Palma de Ouro em Cannes, única até hoje atribuída a uma mulher -, O Piano, de Jane Campion, é a consagração do conceito mesmo do que é grande cinema. Fotografia (Stuart Dryburgh), música (Michael Nyman), montagem (Veronika Jenet), interpretações estão a serviço de uma história cheia de paixão, vida e fúria, que permanece na memória, não importa quantos anos se tenham passado depois do primeiro encontro com estas imagens absolutamente magnéticas.
 
Vencedora de um dos três Oscars do filme, pelo roteiro original, Jane Campion gravou em seu relato as marcas de um enfrentamento com a histórica opressão às mulheres, transformando sua protagonista, Ada McGrath (Holly Hunter, também vencedora do Oscar), num protótipo de todas nós, diante do amor, da adversidade, do machismo, da violência e da dor.
 
O fato de que Ada, uma imigrante escocesa e mãe solteira, que chega no século 19 à Nova Zelândia para um casamento de conveniência, seja muda, torna ainda mais impactante a interpretação de Holly Hunter. Com seu corpo e seu olhar, ela desdobra toda a gama de emoções que sacode Ada, uma mulher que, logo à chegada no país estranho e um tanto selvagem comparado à Europa, tem que separar-se de sua mais clara forma de expressão: seu piano.
 
Chegando de navio, com a filha pequena, Flora (Anna Paquin, vencedora do Oscar de coadjuvante com apenas 11 anos), Ada encara a primeira manifestação da insensibilidade do marido, o rico proprietário de terras Alisdair Stewart (Sam Neill), que se recusa a mandar carregar seu piano para casa. O instrumento é salvo do abandono na praia pela intervenção de um dos ex-trabalhadores da plantação de Stewart, George Baine (Harvey Keitel) - que, por rude que seja, enxerga no piano algo mais do que um monte de madeira e teclas.
 
Será este piano o elemento de ligação entre Ada e George, que a convence a vir tocá-lo na casa dele, enquanto ele a observa. Esta mútua observação é retratada com toda a sutileza e força que somente um olhar de uma diretora sensível como Jane Campion poderia despir de um sensualismo gratuito e transformá-la num poderoso jogo de sedução e libertação que se instaura entre dois personagens, aliás oprimidos pelo mesmo jugo patriarcal, cada um à sua maneira. 
 
Ao também talentoso ator Sam Neill cabe o papel ingrato de representar na tela este patriarcalismo abusivo, enxergando nos nativos Maoris criaturas sub-humanas, passíveis apenas de apropriação, e disposto a arrancar vatagens ou vingança valendo-se do dinheiro ou da violência. 
 
Se O Piano representa o ponto alto da respeitável carreira de Campion, que antes havia realizado os notáveis Sweetie (1989) e Um anjo em minha mesa (1990), sem dúvida ele aconteceu num ano que, para a diretora, seria marcado também pela tragédia, com a morte de um filho. Esse corte inevitável pode ter prejudicado de imediato aquela que se mostrava uma irresistível ascensão, muito embora Jane tenha realizado outros filmes admiráveis depois - caso de Retrato de uma mulher (1996), Fogo Sagrado (1999) e Brilho de uma Paixão (2009), que a levou a competir novamente em Cannes. Mas nada se compara a O Piano, inegavelmente sua obra-prima e um dos grandes filmes de todos os tempos.

Neusa Barbosa


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