Algo Diferente

Algo Diferente

Ficha técnica


País


Sinopse

Eva é uma famosa e premiada ginasta que treina arduamente todos os dias, preparando-se para a que será sua última competição. Vera é uma dona-de-casa, que passa os dias cuidando da casa e do filho de 6 anos e não recebe atenção do marido quando volta do trabalho. As duas estão insatisfeitas e querem mudanças.


Nota Cineweb

PéssimoRuimRegularBomÓtimo


Crítica Cineweb

22/03/2021

O primeiro longa da diretora tcheca Vera Chytilová (1929-2014) já apresenta algumas de suas melhores credenciais, a principal delas, a vontade de não se conformar com os  cânones, seja de forma, seja de conteúdo, que alimentou a sua grande paixão ao fazer cinema.
 
Solitário nome feminino na breve mas intensa Nouvelle Vague tcheca dos anos 1960, da qual fizeram parte Milos Forman, Jiri Menzel, Ivan Passer e Jan Nemec, Vera ocupou com personalidade este posto único, traduzindo em seu cinema o inconformismo de mulheres de vários tipos com os papeis a elas reservados dentro de uma ordem patriarcal que não era tão diferente no seu mundo oriental e comunista ou no mundo ocidental e capitalista - onde se exilaram seus colegas, como Forman, depois do esmagamento da Primavera de Praga por canhões soviéticos, em 1968.
 
Vera também poderia ter partido, mas era cética quanto à propalada “liberdade” que haveria no ocidente. Preferiu ficar na Tchecoslováquia depois de 1968,  num ambiente de repressão e censura que a impediu, por seis anos, de continuar a filmar, só retomando a carreira artística em 1976.
 
Em seu longa de estreia, as protagonistas são duas e, embora sejam bastante diferentes, são uma espécie de espelho uma da outra. Vera (Vera Uzlelacová) é uma dona-de-casa insatisfeita, assoberbada por um cotidiano em que tem que cuidar, tempo integral, do filho de 6 anos, da casa e da roupa, não recebendo atenção do marido quando ele chega - ele prefere ler jornal a conversar com ela.
 
Eva (Eva Bosáková), por sua vez, é uma ginasta profissional e premiada, cujos dias são inteiramente preenchidos por treinamentos extensos, sofridos e intermináveis, por mais que ela tenha paixão pelo que faz. Ela se aproxima do final da carreira mas antes deve enfrentar sua última competição - como todas as outras, repleta de fortes expectativas em cima dela. 
 
Nos dois casos, as regras de um mundo patriarcal e indiferente às necessidades femininas pesam na insatisfação, na infelicidade que ambas, a seu modo, sentem - e essa é a espécie de registro feminista que a diretora, que sempre rejeitou este rótulo, aplica a todas as suas histórias. Sempre que lhe perguntavam sobre isso, Vera sempre rejeitava ver-se como feminista, talvez enxergando no termo, naquela época, uma espécie de moldura ocidental com a qual ela não compactuava inteiramente. 
 
Mas é fato que sua composição de personagens femininas questionadoras, no caso deste Algo Diferente, e literalmente transgressoras, no caso de As Pequenas Margaridas (1966) - filme que foi censurado em seu país e se tornou o mais famoso de sua filmografia -, é sempre muito fiel a um olhar que enxerga por dentro a complexidade da condição feminina e não se furta a um retrato honesto e multifacetado dela.
 
Já em Algo Diferente, nota-se a liberdade com que a diretora se lança à montagem e ao uso da música, sintonizando-se com o espírito da Nouvelle Vague de seu país e de outros na mesma época, como a França e também o Brasil do Cinema Novo - onde Helena Solberg e seu curta A Entrevista (1966) fariam uma boa companhia ao estilo questionador de Vera, embora numa chave documental. 
 
Por todo o talento da original cineasta tcheca, é da maior importância a disponibilização, pela plataforma Supo Mungam Plus, de quatro de seus principais filmes: além de Algo Diferente, Saco de Pulgas, As Pequenas Margaridas e Fruto do Paraíso (a partir de 26-3).

Neusa Barbosa


Deixe seu comentário:

Imagem de segurança