Seção Especial de Justiça

Seção Especial de Justiça

Ficha técnica


País


Sinopse

Em agosto de 1941, a França encontra-se sob ocupação nazista. Jovens e esquerdistas resistem e um grupo resolve matar oficiais a serviço do regime. Quando um oficial alemão é morto em Paris, o ministro do interior decide instalar leis e tribunais de exceção, para poder executar rapidamente opositores já presos.


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Crítica Cineweb

17/03/2021

O veterano diretor grego Constantin Costa-Gavras sempre dedicou boa parte de sua vasta e premiada obra ao cinema político, dissecando ditaduras em filmes como Z (1969), Estado de Sítio (1972) e Missing - O Desaparecido (1982). No gênero, insere-se este Seção Especial de Justiça, drama de 1975 que deu a Costa-Gavras o troféu de direção no Festival de Cannes. Nele o diretor, radicado na França, revisita o incômodo fantasma do colaboracionismo na II Guerra Mundial.
 
Significativo na época de sua realização, o filme mostra-se igualmente relevante neste seu lançamento em streaming, ao abordar como o autoritarismo, o arbítrio e também o lawfare se atualizam, recorrendo a mecanismos, em sua aparência, perfeitamente legais, para exercer o que a filósofa Hannah Arendt tão bem definiu como “a banalidade do mal”.
 
Em agosto de 1941, pouco depois da ocupação da França pelos nazistas, o governo colaboracionista instalado na estação termal de Vichy procura manter a impressão de normalidade e controle do país - de que é uma metáfora perfeita a representação de uma ópera que abre o filme.
 
Nem todos, porém, estão anestesiados com a anormalidade da situação, caso dos jovens que se rebelam contra a conivência governamental com a presença do invasor alemão. Suas passeatas, embora pacíficas e embaladas pela Marselhesa, o hino nacional francês, são recebidas a bala pelas autoridades. Alguns rebeldes resolvem radicalizar, decidindo matar militares a serviço do regime. A primeira vítima é um oficial alemão, morto numa estação de metrô em Paris.
 
Inspirado em livro homônimo de Hervé Villeré, que partiu de fatos reais, o roteiro, assinado por Costa-Gavras e pelo escritor espanhol Jorge Semprún, retrata a reação do governo colaboracionista do marechal Pétain, instalando tribunais e leis de exceção, inclusive com um inédito e ilegítimo caráter retroativo. Tudo por iniciativa de um ministro do Interior, Pierre Pucheu (Michael Lonsdale), particularmente inescrupuloso e ansioso por mostrar serviço aos ocupantes nazistas - ainda que estes não lhes tenham pedido isto.
 
Quebrando resistências, como a do ministro da Justiça, Joseph Barthélemy (Louis Segnier), contra a massa de ilegalidades que está montando, Pucheu convence-o de que, se não punirem rapidamente e com rigor exemplar, os assassinos do oficial, os alemães o farão com maior ferocidade. 
 
Com um ritmo não tão fluente ou apaixonado quanto Z  ou Missing - O Desaparecido -, o filme explora os meandros burocráticos da montagem de uma operação criminosa usando o aparato da justiça. E, como um regime de exceção só se mantém pela ação e omissão de muitos, é preciso convencer diversos juízes, promotores e juristas a participarem da farsa, que visa incriminar seis réus, previamente condenados por outros crimes, executando-os rapidamente pela morte do oficial alemão, que não poderiam ter cometido por estarem na prisão.
 
Examinando minuciosamente os bastidores deste abjeto tribunal, Costa-Gavras age como um legista que leva adiante a autópsia de um aparelho estatal inteiramente corrompido pela ambição, a vassalagem e a total falta de ética e escrúpulos. Os réus são escolhidos mediante o usual mecanismo de persecução dos inimigos de sempre, ou seja, comunistas, anarquistas e, naquela altura, judeus. Haviam sido condenados por delitos menores, como distribuir panfletos ou usar um documento falso. Nenhum deles era alguém que os juristas e juízes cooptados fizesse muita questão de salvar - um deles se refere aos réus como “lixo humano”. 
 
A pior parte disto é que os tribunais de exceção deste molde realmente existiram e funcionaram durante a ocupação da França, constituindo mais um tenebroso capítulo de um período de vergonha na história do país. 

Neusa Barbosa


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