Druk - Mais uma rodada

Ficha técnica


País


Sinopse

Desiludidos com a rotina de sua vida pessoal e profissional, um grupo de professores decidem se manter constantemente embriagados, seguindo a inusitada teoria de um filósofo.


Nota Cineweb

PéssimoRuimRegularBomÓtimo


Crítica Cineweb

25/02/2021

Por trás do título provocador, o filme do já renomado diretor dinamarquês Thomas Vinterberg, que arrasta consigo a consagração pelo Oscar e o Bafta de filme estrangeiro, encerra uma dolorosa reflexão sobre as dores da maturidade masculina.
 
É curioso que, para entrar num assunto tantas vezes explorado no cinema, Vinterberg, um dos pais do Dogma 95, tenha encontrado uma teoria inusitada, de um psiquiatra norueguês, real, Finn Skarderud - de que as pessoas, para permanecerem confiantes e empolgadas, precisam manter permanentemente algum nível de álcool no sangue.
Parece um convite ao alcoolismo e essa premissa é desafiada por um roteiro, assinado por Vinterberg e Tobias Lindholm, que explora em as dores de homens maduros, cujo futuro mais próximo parece limitar-se à calvície, à impotência, à solidão e à velhice. Será que a vida é apenas isso ? 
 
Os quatro protagonistas são professores de uma escola média, que se encontram neste momento atolados em sentimentos de decepção por sua situação atual: Martin (Mads Mikkelsen), professor de História, perde o rumo dos pensamentos em suas aulas e não entusiasma ninguém, nem dentro da classe, nem em sua casa, muito menos a si mesmo: Tommy (Thomas Bo Larsen), professor de Educação Física, vive sozinho com um cão velho e dependente de cuidados; Peter (Lars Ranthe), professor de Música, também há muito não encontra um amor; e Nikolaj (Magnus Millang), professor de Psicologia, sente-se sufocado, junto com sua mulher, para lidar com as necessidades inesgotáveis de três filhos pequenos.
 
Introduzida no grupo por Nikolaj, a teoria alcoólico-permissiva do psiquiatra é livremente interpretada pelo quarteto, que a toma para si como uma experiência vital - e tem o condão de redespertar suas emoções a partir de um sentido de transgressão que há muito lhe vinha faltando.
 
Fosse um típico filme hollywoodiano, Druk… poderia ter embarcado numa jornada moralista profundamente tediosa, que é tudo o que o filme não é. Pelo contrário, ao abraçar um grupo de professores que se permite beber um pouquinho até mesmo escondidos na escola onde lecionam, o diretor demonstra a vontade de, como é o seu estilo, escancarar um pouco da hipocrisia de seu país, tão civilizado e desenvolvido na aparência, mas escondendo uma realidade bem menos edificante. 
 
Vinterberg, no entanto, não quer pregar moral, optando pela sutileza das entrelinhas. Assim, assina um filme que, por vezes, parece aproximar-se de uma versão etílica de A Comilança (1973), de Marco Ferreri, sem que aqui tenha havido uma pré-combinação mortal, como no poderoso filme italiano. Na verdade, os quatro professores estão, nada mais, nada menos, do que radicalizando uma experiência que eles mesmos, quando jovens, devem ter passado e que o filme revela na abertura, ao mostrar rapazes e moças de hoje numa acelerada competição etílica. “Neste país, todos só bebem, mesmo”, desabafa Anika (Maria Bonnevie), mulher de Martin, num determinado momento. Nenhum país feliz beberia tanto. Mas, afinal, qual país é mesmo feliz ?
 
A bebida torna-se então o pretexto para falar da coragem de se entregar à vida e, neste sentido, nenhum personagem é mais revelador do que Martin, que permite, mais uma vez, a Mads Mikkelsen demonstrar porque ele é um dos atores mais disputados do cinema mundial. Aqui, ele se despe de uma aura de força para encarar fragilidades e vexames de uma forma que o conecta com a humanidade das pessoas comuns. 
 
É intrigante pensar que o filme foi dirigido por Vinterberg pouquíssimo tempo depois da morte de sua filha, Ida, de 19 anos, num acidente, ela que atuaria como uma das filhas justamente de Martin. Que ele e a equipe tenham cerrado fileiras para realizar o filme em homenagem a ela, incorporando certamente no seu tecido a dor dessa perda irreparável, adiciona uma camada à nossa apreciação do filme, que mostra empenho e capacidade de comunicação com um grande público. 
 
Se Vinterberg não é mais um dos “monges” do Dogma 95, fanáticos por um despojamento radical dos meios do cinema, ele certamente amadureceu de forma a não se deter em firulas melodramáticas. Sua história tem potência e humanidade em igual medida. 

Neusa Barbosa


Trailer


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