Dersu Uzala

Dersu Uzala

Ficha técnica


País


Sinopse

Em 1910, o capitão Vladimir Arsenyev comanda uma expedição à Sibéria, com o intuito de mapear a região de Ussuri. Ali conhece um velho caçador nanai, Dersu Uzala, que se torna seu guia e também um amigo. Os dois vão se encontrar ao longo dos anos, trocando experiências apesar das diferenças de vivência e cultura entre os dois.


Nota Cineweb

PéssimoRuimRegularBomÓtimo


Crítica Cineweb

08/02/2021

Dersu Uzala (1975) é, por muitas razões, um filme único na carreira do diretor Akira Kurosawa - e também um divisor de águas na vida dele. Consagrado no Japão por filmes emblemáticos e premiados como Rashomon (1950), Viver (1952), Os sete samurais (1954) e Sanjuro (1962), ele viveu uma enorme derrocada financeira e emocional com o fracasso de Dodeskaden (1970), o que o levou a uma tentativa de suicídio um ano depois. 
 
O convite do Mosfilm, um dos mais importantes estúdios soviéticos, para uma adaptação do célebre livro autobiográfico de Vladimir Arsenyev, sobre a amizade entre um oficial czarista e um caçador nanai no início do século 20, resgataram Kurosawa desse abismo. A URSS ganharia o Oscar de filme estrangeiro 1976 e o diretor japonês, de volta sua confiança e auto-estima, que lhe permitiriam criar outra série de clássicos, Kagesmusha - a sombra do samurai (1980), Ran (1985), Sonhos (1990), Rapsódia em Agosto (1991) e seu último, Madadayo (1993). 
 
Kurosawa já conhecia o livro, que o impressionara na adolescência. E desfrutou com grande propriedade das condições da produção, filmada inteiramente em território soviético, em paisagens tão belas quanto perigosas, entre as montanhas, florestas e lagos da região de Ussuri, na Sibéria, próxima à fronteira com a China. 
 
O filme é singular dentro da filmografia de Kurosawa não só por passar-se fora do Japão e afastar-se da galeria de personagens, samurais ou não, que habitaram sua obra antes dele. Trata-se de uma aventura de dois homens extremamente diferentes, o capitão Arsenyev (Yuri Solomin) e o caçador Dersu (Maksim Munzuk), cujas visões de mundo convergem para uma colaboração respeitosa, entre a cultura urbana e científica do primeiro e a sabedoria tradicional do segundo. Neste sentido, o filme é uma ode à integração harmoniosa entre culturas, sem apoiar-se numa pretensa superioridade do colonizador branco e europeu. 
 
Desde o começo, a atitude do capitão é de curiosidade e consideração pelo velho caçador, que se aproxima de sua expedição ao fim de um dia em que não conseguira qualquer espécie de alimento. É acolhido por Arsenyev, que depois o transforma em guia de sua expedição cartográfica, transformando seus conhecimentos da natureza em elemento essencial para seus árduos deslocamentos em locais inóspitos. 
 
Não raro, os recursos do velho nanai salvam a vida do capitão - como na impressionante sequência em que os dois são surpreendidos por um vendaval e a perícia do caçador em montar rapidamente uma cabana de arbustos na neve impede que os dois morram congelados. 
 
Kurosawa, aliás, apropria-se de uma visão de natureza próxima à de Dersu,adotando seu profundo respeito por seus ritmos, sinais e criaturas, uma espécie de ecologista antes da existência do termo. Combinando sua experiência prática com uma mitologia pessoal, Dersu considera todos os animais e elementos da natureza como se fossem pessoas. Nesta categoria cabem a água, o fogo, o ar e também a temida “amba”, ou seja, o tigre, cuja passagem corresponde a outra cena marcante do filme. 
 
Numa fotografia sofisticada para apreender diversas nuances da passagem das estações - e que requereu três diretores de fotografia -, a aventura de Arsenyev e Dersu torna-se, mais do que épica, existencial, traduzindo o eterno conflito entre natureza e civilização. Este aspecto é desenvolvido de forma mais dramática quando Dersu, com sua vista falhando, concorda em ser acolhido na casa do capitão, na cidade. É quando melhor se evidencia sua condição de filho da floresta, de criatura do vento e da chuva. Mesmo fora de seu habitat, Kurosawa encontrou nesta história uma expressão de seu recorrente humanismo. Ainda que expatriado, ele encontrou no retrato desta amizade singular uma forma de revelar aquilo que há de essencial por baixo das aparências, das nacionalidades, das fronteiras e das personalidades. Este aspecto, talvez, é que mantém intocado o encanto do filme. 

Neusa Barbosa


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