As vidas de Gloria

As vidas de Gloria

Ficha técnica


País


Sinopse

De maneira criativa e pouco cronológica, o filme resgata a trajetória da jornalista norte-americana Gloria Steinem desde sua infância com um pai sonhador até se tornar uma das figuras mais importantes do movimento feminista.


Nota Cineweb

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Crítica Cineweb

08/02/2021

A jornalista Gloria Steinem é uma das figuras centrais do feminismo norte-americano, tornando-se uma das principais intelectuais da segunda metade do século XX. Cobrir a vida dela da infância ao presente – quando ela tem mais de 80 anos – é a ambição de As  Vidas de Gloria, baseado no livro de memórias Minha Vida na Estrada, de 2015, no qual ela descreve sua trajetória a partir de suas viagens, que não foram poucas.
 
Dirigido por Julie Taymor – que assina o roteiro com a dramaturga Sarah Ruhl –, o filme não se propõe a ser uma biografia tradicional – a começa pelo fato de colocar quatro atrizes interpretando Steinem. O que estrutura a narrativa é uma viagem de ônibus, sempre filmada em preto e branco, no qual estão as quatro figuras. Ryan Kiera Armstrong e Lulu Wilson a interpretam na infância e adolescência, enquanto Alicia Vikander e Juliane Moore (impressionantemente parecida com a biografada) na vida adulta e maturidade. Soa confuso, e é por uma parte do tempo, porque o longa se recusa à ordem cronológica, mas finalmente acaba se encontrando.
 
A primeira parte com a jovem Gloria (Vikander), na Índia, custa a se encontrar, parece que é só quando ela volta aos EUA, e o filme volta à sua infância que a narrativa toma rumo. As idas e vindas são constantes, mas, com o tempo, se tornam mais bem conduzidas. Taymor estabelece uma espécie de montagem pós-moderna, que aniquila com a historicidade e busca conexões do passado que refletem no futuro. Não por acaso, as quatro Glorias no ônibus interagem entre si, discutem suas escolhas do passado à luz do presente. Contando a vida da filha de uma jornalista (Enid Graham) e de um caixeiro viajante (Timothy Hutton), o filme não deixa de ser sobre o processo de despertar de sua consciência feminista, algo que, posteriormente, seu trabalho e sua militância fariam com outras mulheres.
 
O interesse de Taymor não é desconstruir sua protagonista, mas traçar um painel com as várias mulheres que colaboram em sua jornada e sua construção do movimento feminista nos EUA – que ressoou em boa parte do mundo ocidental. Das mulheres que conheceu na Índia – em rodas nas quais contavam suas vidas a outras mulheres – a figuras famosas, como a ativista Dorothy Pitman Hughes (Janelle Monáe), as advogadas Flo Kennedy (Lorraine Toussaint) e Bella Abzug (Bette Midler), ou a nativa Wilma Mankiller (Kimberly Guerrero). É interessante como todas têm uma espécie de protagonismo em algum momento do filme – encarnando a mesma visão de mundo de Steinem, que sempre diz estar interessada em aprender com outras mulheres – contribuindo de algum modo na formação da protagonista.
 
Momentos-chaves da vida da protagonista estão na tela: seu artigo bombástico sobre as coelhinhas dos bares da Playboy – o texto que a colocou no mapa do jornalismo –, e escolha dos óculos grandes (sua marca registrada), e a infância com o pai, um sonhador sem limites, cuja visão de mundo e modo de vida irá modelar sua própria visão de mundo e modo de vida, ou a famosa homilia que ela fez numa igreja em Nova York a convite do padre. Vikander faz a parte da construção da Gloria, enquanto jornalista e intelectual. A montanha sexista que ela tem de escalar é gigantesca. Quando Moore assume definitivamente a personagem, o cenário é outro, mas, ainda assim, parecido. A luta não termina nunca.
 
Taylor é uma diretora que veio do teatro, e conhecida por suas extravagâncias visuais – como Frida e Across The Universe –, mas aqui não encontra muito material para esse tipo de aventura. Boa parte do longa é um registro realista, mas há momentos em que a fantasia toma conta, e esses são os melhores. Como uma espécie de julgamento de um apresentador de televisão, que pergunta sobre o figurino costumeiro de Gloria – camisa e jeans pretos. Filmicamente, esses diversos exemplos de sexismo parecem exagerados dentro de um roteiro, mas, sabendo-se que, na vida real, podem ser ainda piores. Steinem certamente aprovou o filme – ela faz uma participação emocionante – que, entre seus altos e baixos, faz justiça a uma figura brilhante e fundamental, cuja trajetória e militância permanecem até hoje.

Alysson Oliveira


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