Alice nas Cidades

Alice nas Cidades

Ficha técnica


País


Sinopse

Nos EUA para uma reportagem, o jornalista alemão Phil Winter descobre-se sem inspiração para escrever. Prestes a voltar para casa, ele encontra Lisa e sua filha, Alice. A mulher deixa a filha a seus cuidados, prometendo voltar logo. Mas desaparece, deixando a cargo de Phil a tarefa inesperada de cuidar da menina.


Nota Cineweb

PéssimoRuimRegularBomÓtimo


Crítica Cineweb

01/02/2021

Mesmo não sendo, Wim Wenders considera este como seu primeiro filme - provavelmente por ter descoberto nele o conceito existencial do road movie que caracteriza tantos de seus trabalhos posteriores. O trajeto, no caso, interessa mais do que a destinação nesta experiência do jornalista alemão Phil Winter (Rüdiger Vogler) entre os EUA e a Europa, parte dela na companhia inesperada da menina Alice (Yella Rottländer).
 
A personalidade com que o diretor desenha esta viagem aparentemente tão solta firmou seu nome entre os principais representantes do chamado Novo Cinema Alemão - que, mais do que tudo, definia apenas um grupo de talentosos diretores de estilos completamente diferentes, como Wenders, Werner Herzog, Volker Schlöndorff e Margareth von Trotta, que estavam surgindo e se afirmando naquele momento.
 
Em Alice nas Cidades, Wenders já delineia aquela sua sensibilidade atenta aos pequenos detalhes que tornam seus personagens genuinamente humanos. Por mais que o diretor alemão goste da música e das paisagens norte-americanas, desde então ele recusava a grandiloquência heroica do cinema mainstream de Hollywood. 
 
O bloqueio na escrita de uma reportagem encomendada que atormenta Phil pelas estradas dos EUA torna-se uma metáfora da sua própria dificuldade não só de compreender a paisagem, que ele registra freneticamente em fotos Polaroid, como de si mesmo no trajeto da própria vida - tão sem sabor ou expressão quanto os hoteis, lanchonetes e postos de gasolina de sua jornada. A TV é outro símbolo deste vazio, intelectual e emocional, que ela representa, com seu pseudo-realismo mais esvaziando o sentido do mundo do que revelando-o.
 
Não saberemos muito mais sobre Phil na chegada do que sabíamos à sua partida - tudo que nos é oferecido é o que podemos compartilhar com ele e Alice pelas estradas, ou seja, a vida no presente, no aqui e no agora. Alice é, aliás, o acidente que desequilibra o tédio de Phil. Um encontro casual com Lisa (Lisa Kreuzer), mãe da garota que eventualmente desaparece, torna-o o involuntário guardião da menina quando volta para a Europa. 
 
Não há nenhuma idealização em Phil como uma figura paterna involuntária, nem de Alice como uma criança. Os dois têm seus temperamentos, frustrações, manias, mau humor e também suas descobertas e alegrias. Procurar a avó da menina fornece o pretexto para outra viagem, esta na Alemanha, entre Wuppertal e o vale do Ruhr que guarda referências de infância do próprio Wenders. 
 
Filmado originalmente em 16mm e preto-e-branco, Alice nas Cidades dispensa, desde essa opção estética, qualquer solenidade. Sem grandes dramas (especialmente, nenhuma das sugestões pedófilas que atormentam estes nossos dias), nem a procura de extrair grandes lições, o filme se contenta em ser apenas a jornada de dois desconhecidos que não escolheram estar juntos mas se mostram capazes de viver esta ligação temporária com todos os acidentes, incertezas, surpresas e afeto. Se Wenders iria muito mais fundo em seus trabalhos posteriores, como Paris, Texas (1984), que lhe deu a Palma de Ouro em Cannes, aqui ele já se mostra no domínio de suas ferramentas e intuição. Por isso é que, mais de 40 anos depois de seu lançamento, o filme guarda um irresistível frescor.

Neusa Barbosa


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