Orfeu

Orfeu

Ficha técnica


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Sinopse

Orfeu é um poeta famoso e reconhecido, um tanto temperamental e vaidoso. Outros jovens talentos estão chegando, como Cegeste. O caminho de todos, no entanto, é atravessado pela Morte, uma mulher impetuosa que se apaixona por Orfeu e transgride sua missão, querendo levar Eurídice, mulher de Orfeu.


Nota Cineweb

PéssimoRuimRegularBomÓtimo


Crítica Cineweb

01/02/2021

Jean Cocteau (1889-1963) era um poeta que fazia cinema, o que fica muito claro em cada um de seus poucos mas encantadores filmes. Foram apenas 11, entre curtas e longas, sendo este Orfeu (1950) o quinto longa e, para alguns, o seu melhor.
 
O mito grego de Orfeu, o poeta e cantor que convence os deuses a deixá-lo trazer de volta da morte sua amada Eurídice, ganha, na imaginação de Cocteau, não só uma atualização temporal como uma completa reinvenção. Ele não deixa pedra sobre pedra na própria composição de Orfeu (Jean Marais), um poeta famoso da atualidade um tanto temperamental e vaidoso com a própria fama, detalhe que sintoniza, com antecipação de algumas décadas, a sufocante cultura da celebridades que intoxica o nosso tempo. 
 
Mesclando uma ironia singular na criação dos personagens, com a habitual aderência à fantasia e ao surrealismo que tanto marcaram sua obra, Cocteau imagina a Morte assumindo o corpo de uma mulher bela e dominadora (Maria Casares), vestido de preto e conduzida num Rolls-Royce por um dedicado motorista, Heurtebise (François Périer) e sempre precedida, em sua missões, por dois motoqueiros usando cintos largos e botas altas.  A passagem entre a vida e a morte ocorre por meio dos espelhos, que adquirem a consistência da água diante dos poucos autorizados a este trânsito especial.
 
Valendo-se apenas de efeitos muito simples, como a fotografia reversa, Cocteau é capaz de evocar a magia de uma situação em que a Morte, muito humanamente, se vê apaixonada por Orfeu, que lhe corresponde - alterando por completo a trama central do mito, em que Orfeu só tinha olhos para a sua amada Eurídice (Marie Déa), aquela capaz de levá-lo a atravessar os umbrais da morte.
 
Ao tomar esta e outras liberdades com o mito original, Cocteau o reinventa em seus próprios termos, investindo na poesia intrínseca ao fato de que mesmo os mortos não se tornavam insensíveis às paixões da vida - caso também de Heurtebise e Cegeste (Edouard Dermithe), este outro vaidoso jovem poeta, morto na primeira sequência. 
 
A maneira como Cocteau imagina as fronteiras entre a vida e a morte são, portanto, mais fluidas do que o determinado pelas convenções, incorporando situações como o julgamento da Morte por seus superiores por transgressão às regras. Esta Morte, aliás, é muito personalizada - quando chega, ela diz: “eu sou a sua morte”, o que faz supor que existam outras para outras pessoas. Além disso, assumindo a figura de mulher fatal de filme noir, com seu longo traje preto e cigarro na mão, ela evoca outras referências que Cocteau recicla à sua maneira.
 
A atualização da época da história permite também ao diretor e roteirista referir-se à tecnologia. Sua Morte circula num Rolls-Royce, seus batedores, em motos, e o próprio Orfeu torna-se obcecado pelas misteriosas emissões do rádio do carro, que a seu ver podem tornar-se inspiração para suas criações - distanciando-se da sua Eurídice de carne e osso que, nesta versão, parece uma mulher um tanto frágil, romântica e submissa a um marido que parece não enxergá-la, mesmo quando isso lhe é permitido.
 
Mulheres mais aguerridas, como Aglaonice (Juliette Gréco), uma das Bacantes, são episódicas demais para ter realmente expressão na história aqui, o que não deixa de ser uma pena. Todo este espaço da mulher dona de sua vontade foi mesmo ocupado por esta Morte que, com toda a sua impetuosidade, mostra-se capaz de um supremo sacrifício. Nisto, como em tantos outros detalhes deste filme esplêndido, está o engenho da poesia de Cocteau. 

Neusa Barbosa


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