Beginning

Beginning

Ficha técnica


País


Sinopse

Numa pequena comunidade no interior da Georgia, um templo de Testemunhas de Jeová sofre um atentado. Enquanto se investiga o que aconteceu, a vida de Yana, mulher do pastor, começa a desmoronar.


Nota Cineweb

PéssimoRuimRegularBomÓtimo


Crítica Cineweb

01/02/2021

Se o Festival de Cannes tivesse acontecido em 2020, Beginning, que faz parte da sua seleção de filmes, certamente causaria burburinho. Possivelmente, estaria numa mostra paralela, mas com certeza seria um forte candidato ao Caméra D’Or, prêmio ao qual concorrem obras de cineastas até o segundo longa, o que é o caso da estreante Dea Kulumbegashvili - que roteiriza e dirige sem concessões com uma mão firme, e a câmera ainda mais firme. Um dos produtores do longa é o mexicano Carlos Reygadas, cujo estilo o da diretora lembra bastante. A produção é a representante da Geórgia na disputa de uma vaga no Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira.
 
A cena inicial focaliza um templo de Testemunhas de Jeová durante um culto, no qual o pastor  David (Rati Oneli, também roteirista do filme) prega sobre a passagem da Bíblia em que Deus manda Abraão matar seu próprio filho, Isaac. O sermão é interrompido quando o local é atacado e incendiado. A passagem do texto sagrado está no Livro de Gênesis, traçando, logo de cara, um paralelo com o título do longa, que também se refere ao começo de algo. Mas o que?
 
O ataque foi direcionado a uma pessoa específica, Yana (Ia Sukhitashvili), uma ex-atriz e mulher de David, cuja função é preparar as crianças para o batismo na religião. Eles vivem em uma cidade não muito distante da capital da Geórgia, e ela não é uma mulher feliz. Sua vida é uma prisão, oprimida por um patriarcado que, a cada dia, a sufoca mais. Trabalhando com o diretor de fotografia Arseni Khachaturan, Kulumbegashvili opta por uma imagem quadrada, o que é ainda mais opressivo e transforma o frame quase que em barras das grades de uma prisão.
 
Em mãos menos habilidosas, tal metáfora seria forçada ou gratuita, mas a diretora sabe muito bem o que tirar de suas imagens, e o que tirar do quadro de imagens. É como se Beginning sempre nos levasse a perguntarmos o que não estamos vendo. O que está fora dessa imagem? Yana é uma mulher infeliz e tensa, mas também dada a uma certa vocação a mártir. O fato de trabalhar com as crianças da igreja dá a ela também uma vocação especial, algo de maternal, uma figura que, às vezes, beira o sacro tamanha, sua abnegação e martírio.
 
Sua situação piora quando se depara com um sádico que clama ser um detetive (Kakha Kintsurashvili), que irá abusar sexual e emocionalmente de Yana. E ela não reage. Não teria forças? Ou realmente está se entregando a um sacrifício? Beginning não é um filme de explicações, mas que convida seu público a partilhar da trajetória de Yana e tirar suas próprias conclusões.
 
Ainda no começo do longa, Yana diz a David que há algo de errado com ela. “É como se eu estivesse esperando algo começar ou acabar.” O título, novamente, talvez seja uma pista para a resposta a esse comentário. O fim pode ser apenas o começo. Kulumbegashvili, em certos momentos, também lembra a rigidez e a crueldade de Michael Haneke, mas, novamente, ela é dona de uma sensibilidade própria, sabe como mexer os fios sem que esteja meramente copiando. Beginning marca o começo de uma carreira promissora.

Alysson Oliveira


Deixe seu comentário:

Imagem de segurança