Uma noite em Miami

Ficha técnica


País


Sinopse

Em 25 de fevereiro de 1964, em Miami, Cassius Clay, de 22 anos, tornou-se campeão mundial dos pesos pesados. Foi comemorar com os amigos o pregador muçulmano Malcolm X, o cantor Sam Cooke e o jogador de futebol americano Jim Brown, O filme recria as conversas que eles podem ter tido nessa noite.


Nota Cineweb

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Crítica Cineweb

26/01/2021

Num quarto de hotel modesto em Miami, na noite de 25 de fevereiro de 1964, quatro das maiores personalidades negras da época se reuniram. Se a intenção era comemorar a vitória de Cassius Clay (Eli Goree) como o novo campeão mundial dos pesos-pesados, as conversas entre os amigos passaram em revista as próprias posições diante do movimento dos direitos civis que naquele momento sacudia o país, com impacto sensível sobre a população afrodescendente.
 
Estavam ali o líder muçulmano Malcolm X (Kingsley Ben-Adir), o ídolo do futebol americano Jim Brown (Aldis Hedge) e o cantor Sam Cooke (Leslie Odom Jr.), dono não só de uma voz belíssima como do próprio selo. E se o encontro do quarteto realmente aconteceu, o que conversaram é fruto da imaginação refinada do dramaturgo Kemp Towers, que adapta sua peça para o cinema, fornecendo material de primeira para a estreia na direção da premiada atriz Regina King - dona de um Oscar como coadjuvante por Se a rua Beale Falasse (2019) e quatro Emmys, o mais recente como atriz principal da série Watchmen. Antes, ela só havia dirigido produções para a televisão. 

Não é menos verdade que a criação dos diálogos entre estes ícones da identidade negra norte-americana, por mais que sejam fictícios, parte de uma profunda fidelidade àquilo que cada um representava, dando consistência aos embates dos amigos no quarto de hotel em Miami - que se torna muitas vezes pequeno para a energia ególatra do genial Clay, bem como da implacável disposição doutrinadora de Malcolm, que acabara de converter o jovem boxeador à fé islâmica, o que estava para ser anunciado no dia seguinte, quando Clay se tornaria Muhammad Ali.
 
Dentro destas quatro paredes, trava-se uma conversa que toma várias direções, embalada pelos conflitos e contradições de cada um dos presentes. A fala macia de Sam Cooke não disfarça seu incômodo pela percepção de que seu sucesso e riqueza no mundo branco não convencem os amigos de que esta é também sua forma de afirmar a negritude em território hostil. Por conta disso, serão ele e Malcolm os mais aguerridos oponentes nesta noite que se pretendia apenas de celebração da vitória de Clay. 
 
O engenho com que o roteiro é construído e com que a diretora elabora as ligações entre as dinâmicas de cada personagem é notável, permitindo uma energia e uma fluência admiráveis numa história assim tão dependente das palavras. Em boa parte isso se deve à qualidade do quarteto de intérpretes, que se conduzem de uma maneira muito espontânea, deixando cair as máscaras - afinal, são irmãos à vontade entre si, num ambiente em que não pesam as restrições do mundo branco e hostil com que tem que lidar fora daquelas paredes.
 
Outro tento lavrado por Regina King é permitir a individualização de cada um dos personagens, com seus empenhos e motivações de calibre distinto. O Cassius Clay deste momento, de apenas 22 anos, é um ativista em formação, a poucos anos de assumir a suprema ousadia de recusar a ida para o Vietnã que lhe custaria o título mundial e cadeia. Aqui, ainda é um quase menino, empolgado pelo próprio talento, que precisa dos conselhos de um esportista mais experiente, como Jim Brown, já escolado na consciência de que, por mais que sua consagração nos campos do esporte seja indiscutível, isso não lhe garante respeito suficiente para ser tratado como um igual pelos brancos - como demonstra a ilustrativa situação inicial entre ele e o sr. Carlson (Beau Bridges).
 
Quem está numa encruzilhada é Malcolm X, justamente no momento em que prepara uma ruptura com a Nação do Islã onde se formou, por discordâncias profundas com seu líder, Elijah Muhammad. Malcolm está acuado e sabe disso. Esta noite é quando ele planeja uma cartada ousada, mas que não depende só dele. E ele exerce o melhor de sua oratória para chamar os amigos para assumirem seus papeis na luta negra, numa cobrança que irrita bastante Cooke. Mas esta é uma briga de família. Poucas vezes se verá um caleidoscópio assim amplo dos dilemas de ser negro nos EUA e que foi tão bem escrito que transcende a época que retrata, lançando uma ponte para compreender o movimento que levou às ruas tantos milhares em 2020, o Black Lives Matter.

Neusa Barbosa


Trailer


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